Fator “repugnância” afeta mercados

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Os alunos do curso de Pós-Graduação da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS conheceram mais detalhadamente um fator econômico inusitado: o da ” repugnância “. Foi nesta quarta-feira, 2/5, durante a palestra do professor Julio Elias, da Universidade Del CEMA, da Argentina, promovida pelo PPGE. O professor Júlio é Ph.D pela Universidade de Chicago, sendo que uma versão anterior desta palestra foi também apresentada na Universidade de Harvard.
O fator repugnância mede o grau, maior ou menor, de preconceito ou ojeriza que as pessoas possuem por determinados tipos de transações, como o de bebidas alcoólicas, maconha ou carne de cachorro para consumo humano, por exemplo.
– A economia comportamental concentra-se em certas regularidades nos gostos das pessoas que podem ter implicações importantes sobre o tipo de mercados – explica Elias.
Segundo o professor, esse fator muda conforme a cultura de cada sociedade mas é fortemente impactada pela análise do custo/benefício que acaba, de alguma forma, prevalecendo. O que antes era repugnante pode passar a ser reconhecido como prática usual, principalmente a partir da organização destes mercados.
– A repugnância assim, responde ao custos: quando ela é barata, nós observamos muito dela, quando ela se torna cara ou dispendiosa, ele tende a desaparecer. Assim, este tipo de analise indica que os economistas não podem ignorar a importância deste fator, a repugnância, pois ele pode ter consequências sobre o tipo de mercados e transações que nós observamos – observa o professor Giácomo Balbinotto, especialista em economia da saúde da FCE.
Segundo ele, o uso da analise econômica mostra que o que é repugnante pode depender das circunstâncias e está fortemente associado com os custos sociais impostos pela proibição e regulação.
Outro exemplo de mudança no fator de repugância é lembrado por Julio Elias.
– A barriga de aluguel e a comercialização de espermas e óvulos é um exemplo da diminuição do fator de repugnância a partir do entendimento do seu benefício – explica.
Para Elias, aliás, o caso da comercialização de órgãos é emblemático em relação ao atraso que a “repugnância” proporciona no avanço para organização deste mercado, que resolveria o problema da altíssima mortalidade nas listas de espera.
Em 2007 escreveu um artigo juntamente com o Nobel de Economia Gary Becker, da Universidade de Chicago, demonstrando o benefício desta organização
– O nosso estudo, aponta que a introdução de incentivo, financeiro ou não, aumentaria o fornecimento de órgãos, eliminando a longa lista de espera e o custo do próprio transplante, reduzindo drasticamente o número de mortes – afirmou o professor.
Pelo estudo, a carência de rins para transplantes poderia ser eliminada por US$15 mil por órgão. Seria 10% a mais no custo total de um transplante que nos Estados Unidos gira em torno de US$ 150 mil. Os custos dispendidos pela sociedade ou pelos governos em hemodiálise, por exemplo, seriam suficientes para cobrir todas essas despesas se o mercado de transplantes fosse organizado e, principalmente, legalizado.
Em outro exemplo, os honorários pela medula óssea seriam bem menores, simplesmente porque o doador pode rapidamente regenerar o que foi perdido. Num processo em andamento na Califórnia (EUA), os demandantes querem apenas poder tentar oferecer compensações em forma de bolsas de estudos, mesadas domésticas ou uma doação a uma organização de caridade em troca do órgão.
– Já existe um sentimento, nos Estados Unidos, de que alguns órgãos poderiam ser liberados, mas ainda estamos muito atrasados nesta discussão – afirma o professor.
No entanto, como cientista e pesquisador, prefere ir além. Para finalizar sua palestra escolheu um trecho das “Mil e Uma Noites”.
– O que tenho a dizer é que é inútil ter repugnância com certas coisas. Eu experimentei por mim mesmo que o que minha vontade mostrou mais oposição é cuidadosamente onde meu destino a minha pena levou-me. – citou.
Cerca de trinta e seis mil pessoas estão na lista de espera por transplantes no Brasil, demanda próxima dos Estados Unidos que chega a quarenta mil.
Leia aqui o artigo do professor Julio Elias e de Gary Becker

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