Como Woody Allen pode mudar sua vida

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O título soa como autoajuda e as livrarias vão provavelmente deixá-lo na seção correspondente, mas não é bem esse o divã para o qual nos convida a leitura de “Como Woody Allen Pode Mudar Sua Vida” (tradução literal do original em francês). Mais apropriado seria algo como “Woody Allen no Gabinete do Dr. Vartzbed”, ou “Os Filmes de Allen que Eu Vi com Freud”. Não se deixe impressionar, contudo, por esse pequeno truque de mercado para ampliar o público-alvo: o suíço Éric Vartzbed faz, a partir de conceitos da psicanálise e da filosofia, uma breve e saborosa incursão à obra de um dos principais cineastas contemporâneos, escorando a abordagem erudita em um texto límpido, amistoso e bem-humorado. Pode até mudar a vida de alguém, vá saber.

Doutor em psicologia, psiquiatra de formação analítica e autor também de um livro que aproxima o budismo da psicanálise (“Le Bouddhisme au Risque de la Psychanalyse”, 2009), Vartzbed representa o flerte sem culpa de intelectuais com a cultura de massa. Claro que Woody Allen corresponde a um caso muito peculiar, quase um álibi: embora faça cinema, é também (e em primeiro lugar) escritor, e o conjunto de sua obra – contos, crônicas, peças teatrais, filmes – formou uma consistente legião de admiradores, sobretudo em círculos mais escolarizados de metrópoles de diversos países, por sintetizar alguns temas-chave de nosso tempo (e talvez de todos os tempos) em situações facilmente reconhecíveis por esse nicho de leitores e espectadores.

Na França, por exemplo, Allen é rei – como registra a derradeira piada, auto-irônica, de “Dirigindo no Escuro” (2002). Mais do que apenas engrossar as fileiras de fãs do cineasta, Vartzbed afirma que deu início a um processo de reflexão e amadurecimento (em resumo, “mudou”) ao ver “A Outra” (1988). Nesse drama sem concessões ao humor, Gena Rowlands interpreta uma intelectual que aluga um apartamento para terminar um livro em paz. Pela tubulação do prédio, ela descobre que pode ouvir as sessões do psiquiatra vizinho e se deixa envolver pelo relato de uma desconhecida (Mia Farrow). De acordo com Vartzbed, “A Outra” o fez “confrontar dificuldades individuais que exigiam um esforço de compreensão”.

“Esse filme teve para mim o efeito de um espelho de aumento”, explica. “Deu forma a um caos de impressões, permitindo-me fazer uma narrativa de algo que me dizia respeito sem que eu tivesse consciência disso. Um véu tinha sido rasgado; dali em diante, passava a enxergar o rumo desagradável que minha vida tinha tomado… Na saída do cinema, já passado o choque, entreguei-me a uma intensa atividade psíquica. Como a protagonista de ‘A Outra’, fui inundado por uma torrente de lembranças.” Vartzbed descobriu ali, na pele, o que motivou o casal de terapeutas norte-americanos John e Jan Hesley a recomendar filmes a seus pacientes, trabalho descrito no livro “Rent Two Films and Let’s Talk in the Morning” (alugue dois filmes e amanhã cedo conversamos): as histórias do cinema podem ajudar a reconhecer em nós mesmos algo semelhante ao que vemos na tela.

“Os filmes de Woody Allen se aproximam dos contos: até quando seu discurso é sério e desiludido, o tom é tão energizante, apimentado, irrequieto que o espectador deixa a sala assobiando, revigorado”, elogia Vartzbed. Eles “fazem pensar, propõem diferentes caminhos possíveis para nos orientarmos na selva das relações amorosas, profissionais ou políticas. São pontos de referência, indicações, para uma espécie de ‘educação sentimental’. É um cinema que casa bem o pessimismo da inteligência e o otimismo da vontade.” Na primeira parte do livro, o autor parte da sua experiência pessoal com a obra de Allen para apontar o que lhe parece fundamental nela, como o humor “que desmonta as aparências, estilhaça as máscaras, age como um ácido que corrói proibições e convenções”.

 

Personagens e situações dramáticas de dezenas de filmes são costuradas, na segunda parte, em torno de temas recorrentes: vida amorosa, política, religião e espiritualidade, o papel determinante do acaso, a fuga da realidade, a busca da felicidade e a ética no mundo contemporâneo. Vartzbed recorre também a entrevistas e depoimentos de Allen ao alicerçar seus pontos de vista. Para quem ainda não conhece a maioria dos filmes mencionados, o livro configura um roteiro precioso, já “mastigado”. Mas, para quem os viu, reserva-se o prazer intelectual de toda leitura sobre cinema: revivê-los mentalmente segundo esse percurso interpretativo e, eventualmente, encontrar novas chaves para apreciá-los.

Os filmes antigos, e aqueles ainda por vir: aos 76 anos, Allen mantém a média de um longa-metragem por ano. Em junho, está prevista a estreia no Brasil de “Para Roma com Amor”, a escala italiana do périplo europeu que o levou a Londres, Barcelona e Paris depois que algumas portas se fecharam nos EUA, e que traz Allen como ator pela primeira vez desde “Scoop – O Grande Furo” (2006). Rumores indicavam que a próxima parada da caravana seria Copenhague (terra de Kirkegaard, lembraria o Dr. Vartzbed), mas Allen anunciou na semana passada que filmará novamente nos EUA, em San Francisco e Nova York.

Fonte: Sérgio Rizzo / Valor Econômico.

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