Mahler e Freud

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone

Não sei se amo o Diretor da Ópera de Viena, o dirigente famoso ou o homem chamado Gustav Mahler – Do diário de Alma Schindler.

 

Além de não apreciar a música de Mahler, Alma recebeu uma lista de restrições, assim que se casou com Gustav, em1902. A que mais lhe fez sofrer foi a proibição categórica de continuar a compor. Para entendermos o efeito desta medida, Alma vinha compondo há alguns anos, e muitas de suas canções não caíram no esquecimento até os dias de hoje. Mahler tinha um péssimo conceito da arte de sua nova esposa.

Ao voltarem da lua de mel, foram viver numa casa de campo em Maiernigg, frente ao lago Wörth. Lá o compositor tinha a paz necessária para compor suas sinfonias. Para Alma restavam a solidão e os afazeres domésticos. Seu diário revela: Eu perdi todos meus amigos e amigas e hoje tenho um marido que não me compreende.

No outono de 1909 Mahler viajou para Nova Iorque pela terceira vez, para cumprir mais uma temporada no Metropolitan Opera House.

Ao retornar à Viena, seguindo orientação médica, Mahler mandou sua jovem esposa para uma temporada no SPA de Tobel. Neste local Alma foi encontrar a calma e a cura de suas aflições, não nas fontes termais, mas na figura de um belo e jovem arquiteto, Walter Gropius. Anos mais tarde ele se tornaria famoso ao fundar a Bauhaus, uma das mais conceituadas academias de arte do mundo.

Walter Gropius

Enquanto Alma passava as noites nos braços de Gropius, Mahler preocupava-se com o estado emocional e os tormentos enfrentados por sua esposa. Recentemente eles tinham perdido a filha mais velha, Maria Anna, morta após um surto de difteria.

Alma lhe mandava notícias do SPA. Suas mensagens eram curtas e com o passar dos dias começaram a escassear. Preocupado, Mahler escreveu: Você está ocultando algo? Acredito estar sempre lendo algo diferente nas entrelinhas.

Alma terminou seu período de tratamento e retornou para a casa do marido. Recebia inúmeras cartas de Gropius, onde ele pedia que abandonasse tudo para viverem juntos. E de repente, aconteceu algo inesperado. Mais uma vez ele assinou uma apaixonada carta, pedindo que sua amada tomasse uma posição firme e deixasse Mahler. Ao invés de dirigir a correspondência para Alma, ele colocou como destinatário o Herr Direktor Gustav Mahler.

Muitos apontam essa troca de nomes como um ato falho, mas na realidade a intenção de Gropius era a de acelerar o rompimento do casal e assim obter uma decisão a seu favor. Ao ler a carta, Mahler chegou à conclusão de que este era o resultado de anos de repressão aos impulsos e sentimentos de sua esposa, sempre tratada como uma dona de casa. O compositor havia anulado toda a individualidade de uma mulher que vivia subjugada. Mahler era cego a tudo que se passava ao seu redor, pois havia se entregue de corpo e alma a sua arte. Alma, gradualmente foi entrando em desespero, devido à maneira como o marido a tratava. Ela definiu sua situação com as seguintes palavras: Eu estou casada com uma abstração, não com um ser humano.

Após meditar sobre o conteúdo da carta e suas implicações, Mahler agiu conforme seu caráter que demonstrava ser um homem de total transparência, direto, sem rodeios. Foi procurar Gropius e manteve com ele uma longa conversa. Logo após, reuniu-se com Alma e colocou-a a par dos acontecimentos. Ele sempre manteve a calma, apesar de internamente estar sofrendo com a iminência de perder sua bela e jovem esposa. No final do encontro dirigiu para ela estas palavras: O que você resolver fazer, faça-o da maneira mais correta possível. Você decide. Alma rompeu com Gropius e ficou com Mahler. Este procurou dar um novo rumo ao seu comportamento tirânico. Antes ele tomava as decisões. A partir desse evento ele passou a consultar e decidir em conjunto com a esposa. Começou a interessar-se pelas composições de Alma, as quais ele havia totalmente ignorado no início de sua vida matrimonial.

Sigmund Freud

Mesmo assim, Mahler entrou em profunda depressão ante a perspectiva de ser abandonado por sua mulher a quem ele voltara a amar com toda a intensidade. Foi nesta ocasião que ele decidiu procurar Sigmund Freud, na ocasião em férias na Holanda. Existem três diferentes versões a respeito deste memorável encontro entre estes dois gênios. A primeira se encontra nos apontamentos de Ernest Jones, biógrafo de Freud. A segunda está numa carta que Freud escreveu ao psicanalista Theodor Reik. A terceira é um resumo do encontro, escrito por Marie Bonaparte, aluna do Professor Freud. Como o texto de Jones é quase semelhante ao conteúdo da carta recebida por Reik e os apontamentos da estudante giram mais em torno da música e não tem muita consistência, deixaremos para os leitores o texto da carta de Freud:

Eu analisei Mahler durante uma tarde no ano de 1910, em Leyden. Baseado em seu relato, creio termos chegado a muitas conclusões naquele momento. A visita pareceu-me necessária, pois sua mulher, naquela época, estava revoltada. Seu esposo não tinha mais libido por ela. Numa interessante exploração pela história de sua vida nós descobrimos suas condições pessoais para o amor, especialmente seu complexo de Santa Maria (fixação materna).

Eu tive muitas oportunidades de admirar a capacidade de compreensão psicológica deste compositor tão genial. A princípio, nenhum raio de luz conseguiu iluminar a fachada que ocultava sua neurose obsessiva. Seria como tentar cavar com uma vara, uma passagem através dos alicerces de um misterioso edifício.

Depois de horas de conversação, Freud obteve êxito em acalmar Mahler. Estese preocupava com a grande diferença de idade entre os dois, mas sob o ponto de vista do analista, esta característica o fazia muito atrativo para uma jovem, bela e culta mulher. Alma amava seu pai, logo ela só poderia se ligar a um homem que oferecesse a ela a figura do pai substituto.

Por sua vez, Mahler estava procurando uma mulher com a imagem de sua amargurada e sofrida mãe. O encontro de Freud com Mahler trouxe alívio ao compositor e permitiu que ele levasse uma vida próxima do normal. As mudanças de Gustav em relação à Alma foram radicais. Constantemente ele demonstrava a ela provas de seu amor.

Uma das anotações em seu diário: Estou experimentando momentos de alegria que jamais considerei possíveis. Apesar de tudo que aconteceu, Gustav me proporciona um amor sem fronteiras. Eu sou a vida para ele, e me transformarei em sua morte, se partir.

Alma Mahler permaneceu fiel companheira do esposo, até morte do mesmo. Decorrido o período convencional de luto, ela casou-se com Walter Gropius.

 

torelly@polors.com.br


Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone