Longo inventário da dor

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Existe um quase subgênero biográfico ainda não devidamente reconhecido ou mapeado: o de filhos que escrevem memórias sobre seus pais e a importância que estes tiveram em sua formação. No Brasil, pelo menos duas obras relativamente recentes são exemplares disso – “Graciliano: Retrato Fragmentado” (1991), de Ricardo Ramos; e “Quase Memória” (1995), de Carlos Heitor Cony. Ambas tratam de um tema doloroso para seus autores, a ausência paterna, sem cair na pieguice, no sentimentalismo ou na veneração.

“Patrimônio”, de Philip Roth, segue o mesmo estilo autobiográfico, ao narrar a vivência com seu pai, o vendedor de seguros Herman Roth, no decorrer de sete anos, entre duas tragédias que marcaram sua vida: a morte da mãe, em 1981, fulminada numa mesa de restaurante por um enfarte, e a descoberta de que o pai estava com um câncer avançado no cérebro, aos 86 anos.

Embora não apareça entre os livros mais celebrados do escritor americano, “Patrimônio” deveria ao menos ser lembrado por um aspecto: tornou-se um divisor de sua obra literária, a passagem para um novo nível de valor em sua produção. Foi a partir dessa narrativa autobiográfica que Roth chegou à maturidade temática, com abordagens mais densas e existencialistas. Escreveu um daqueles livros que se costuma lembrar por toda a vida.

A partir de franquezas corajosas e boas doses de humor, elaborou-o enquanto o pai ainda estava vivo, o que lhe permitiu experimentar as mais intensas experiências de sua vida: a impotência diante de uma doença, da brevidade da existência e da certeza implacável da morte – temas que retomaria em “O Escritor Fantasma”, “Homem Comum” e “Nêmesis”. Por outro lado, explorou a redenção ao tratar de alguém que, na maior parte de sua existência, se manteve distante da família por motivos diversos, entre eles sua personalidade forte, dominadora, machista e inquestionável.

Só então, com mais de 50 anos, Roth conheceu e aprendeu a amar o homem que só lhe permitira apenas respeitar. A aproximação do fim humaniza pai e filho. Herman se revela um sujeito extraordinário da forma mais dolorosa: à medida que o câncer o devora, ele perde parcialmente a visão e a audição e admite suas fraquezas físicas e emocionais. A seu modo, os dois se deixam envolver por uma relação tocante. Ao relacionar memórias um tanto quanto fragmentadas e caóticas, de certo modo o autor dribla os clichês para construir uma narrativa por meio da descrição de pequenos gestos e pelas observações que o filho atento faz do pai.

O que se poderia chamar de amizade entre os dois começa no velório da mãe e se completa depois com a descoberta da doença. Para o filho, satisfazer as necessidades da mãe, se ela tivesse sido a sobrevivente, pareceria algo natural e fácil de gerenciar porque ela era o repositório do passado da família. Mas, com o pai, tudo se complicava. Ele possuía “uma personalidade mais difícil, muito menos sedutora e também menos maleável”. Roth se viu perdido diante da inevitabilidade de que o pai deixaria em breve de existir. Generoso, tenta simplesmente compreender o homem tão falho que o gerou. Fraqueja o tempo todo. Mais que o pai, aos poucos, ele vai desmoronando.

Ao narrar esses fatos, Roth revela um modo de superar a perda com grandeza, que o aproxima de uma experiência quase divina de descobrir nas pessoas algum sentido para justificar por que existimos. Mas não perde a mão. “O que os cemitérios provam, ao menos para gente como eu, não é que os mortos estão presentes, mas que se foram de vez. Eles se foram, enquanto nós, por enquanto, não fomos. Isso é fundamental e, embora inaceitável, bem fácil de compreender.” Ao ser relançado, 21 anos depois, “Patrimônio” permanece poderoso e faz o leitor admirar Roth não apenas como escritor, mas pela pessoa que ele se revela nesse confessionário que deu outro sentido à sua vida e aos seus romances.

Fonte: Gonçalo Junior / Valor Econômico.

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