Cidades brasileiras de todos os cantos

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Rio de Janeiro no início do século XX

 

O tema de “A Cidade no Brasil”, do antropólogo, poeta, compositor e ensaísta Antônio Risério, pode parecer árido e de interesse restrito. Mas logo o leitor se depara com instigante e sedutora narrativa sobre a formação do Brasil como país e nação a partir de um ângulo pouco observado: o da fundação e do desenvolvimento das cidades e, consequentemente, da sua peculiar urbanização, com amplas consequências sociais, econômicas e políticas. Risério mostra influências milenares de três continentes – Ásia (os árabes que dominaram a Península Ibérica), África e Europa – que ajudaram a moldar o conceito, o sistema e as estruturas que direcionaram as primeiras aglomerações habitacionais do país.

O extrato é dos mais curiosos para os leigos: em metade dos seus cinco séculos de história, o Brasil não teve cidades na concepção completa. Mesmo as vilas tardaram a se formar. “Por décadas, tivemos apenas aldeolas luso-ameríndias”, escreve. Risério – um dos mais influentes intelectuais baianos, ligado a Gilberto Gil e Caetano Veloso – busca influências de outros continentes na colonização brasileira.

Da África, por exemplo, destaca os bantos e os iorubanos – também chamados de nagôs. “Os africanos realizaram coisas admiráveis em matéria de habitação”, observa, para falar de suas peculiaridades de construções rústicas, porém funcionais. “Se a cidade negro-africana nasceu antes de qualquer intervenção europeia, não há dúvida de que a vida urbana, em algumas regiões da África, foi estimulada, a partir do século XV, pela presença de pequenos focos europeus que foram se instalando na linha litoral do continente.”

O meticuloso e fundamentado trabalho do antropólogo é pontuado de posicionamentos críticos que estimulam a reflexão de quem ler. Não é a primeira vez que ele escreve sobre o tema. Em 2004, lançou “A Cidade da Bahia”, a história da capital baiana desde a sua fundação. Parte de seu interesse pelo assunto vem da experiência em administrações públicas e do envolvimento com campanhas políticas, inclusive da presidente Dilma Rousseff, que lhe permitiram estudar e preparar projetos de políticas públicas. A aproximação com a arquitetura e o urbanismo se deu na convivência com os arquitetos Lina Bo Bardi e João Filgueiras Lima, Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki.

Em síntese, defende o autor, nesses cinco séculos, o país viu surgir a adoção do modelo urbanístico ibérico na América, a influência africana e das migrações modernas na configuração urbana. “Somente no século XVIII, já com Vila Rica (atual Ouro Preto) se projetando em Minas Gerais, o Brasil começaria a ter um elenco menos irrazoável de cidades.” Vieram em seguida o conceito de cidades ibéricas e Salvador, a primeira capital lusitana além-mar, que tem sua origem esmiuçada por Risério. “De núcleo urbano filiado ao modelo mediterrâneo, islâmico-medieval, de cidade. Em suma, projetada como cidade renascentista, Salvador se realizou, objetivamente, como cidade hamita”, anota.

Há observações interessantes por todo o livro. Sobre a capital paulista, ele afirma que uma cidade precisa ter sorte, como foi o seu caso. “Poderia não ter se convertido no principal centro urbano paulista”, começa ele, para explicar como uma série de fatores fortaleceu e desenvolveu o lugar. O plano piloto de Lucio Costa, por outro lado, não primava pelo radicalismo social que se lhe costuma atribuir. Era mais pragmático. “Fantasiou-se, porém, que Brasília se faria uma ‘cidade de iguais’, onde o senador e o servente seriam vizinhos.” Carlos Guilherme Mota, na apresentação, põe Risério como um novo intérprete do Brasil, ao propor se pensar e repensar o passado, o presente e o futuro da cidade – e da sociedade – brasileira. Não exagera ao fazer tal afirmação.

Fonte: Gonçalo Júnior / Valor Econômico.

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