Para aqueles que não querem nada com a vida

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone

Faz 36 anos que Eliana Zagui vive deitada num leito de UTI do Instituto de Ortopedia do Hospital das Clínicas de São Paulo. Vítima de paralisia infantil aos dois anos, ela perdeu os movimentos do pescoço para baixo. Respira com ajuda de equipamentos.Na cama, a menina se formou no ensino médio, aprendeu inglês, italiano, fez curso de história da arte e tornou-se pintora. Tudo isso usando a boca para escrever, pintar e digitar. Lançou há poucos dias seu primeiro livro: “Pulmão de Aço – uma vida no maior hospital do Brasil” (Belaletra Editora).Pulmão de aço é o nome de uma máquina, inventada na década de 1920, parecida com um forno. As pessoas com insuficiência respiratória eram colocadas dentro dela, com a cabeça de fora.

Eliana ficou cinco dias lá dentro, mas não funcionou. A pólio havia paralisado completamente o diafragma e a deglutição. Ela teve, então, que ser conectada para sempre a um respirador artificial. Só consegue ficar poucas horas longe do aparelho.

Entre 1955 e o final da década de 70, 5.789 crianças vítimas da pólio foram internadas no HC. Sete delas, atingidas com mais severidade, ficavam lado a lado na UTI. “Nós nos apegávamos um ao outro, como numa grande família. Era a única maneira de suportar aquilo tudo”, lembra Eliana.

Da turminha, só sobreviveram ela e Paulo Machado, 43, que divide o quarto com a amiga e cuja história de vida também aparece no livro. “A Eliana é minha irmã, a minha família. Tem temperamento forte. Quando vejo que ela está brava, coloco os fones de ouvido e fico na minha”, diz.

Eles poderiam viver com suas famílias, com o apoio do hospital. Mas nunca houve interesse por parte delas. Os parentes raramente os visitam. “Não me magoo mais. Já sofri muito e hoje aprendi que cada um é cada um.”

Eliana e Paulo passam a maior parte do tempo na internet. Ela gosta de sites de relacionamentos, de pintura e artesanato. Paulo é aficionado por cinema. Está envolvido na produção de uma animação cuja protagonista é Teca, o apelido carinhoso pelo qual chama Eliana. E, para ela, o amigo é o Teco.

Quando é necessário, ele faz as vezes de irmão mais velho. “Dias atrás, eu me irritei no Face [Facebook] e postei uma mensagem malcriada. O Paulo viu e me chamou a atenção”, conta Eliana, que chegou a ter 3.000 amigos virtuais. “Fiz uma limpa no final do ano e só deixei uns cem. Agora tenho uns 300, mas preciso limpar de novo.”

A saudade dos amigos reais, os quais viu morrer um a um, é o que mais a entristece. “Foram momentos tão bons. Mas não voltam mais.”

No livro, ela relata que flertou com o suicídio. “Avaliava as possibilidades: arrancar a cânula da traqueia com a boca, cortar ou furar o pescoço.” E encerra com humor. “Descobrimos que até para morrer antes da hora precisamos da ajuda de alguém.”

Eliana diz que, volta e meia, essas ideias ainda a visitam, mas que hoje tenta aliviar suas angústias nas sessões semanais de análise.

Pergunto se sonha em viver na casa dos pais. “Não. Eu iria estagnar”, responde convicta. Mas, sim, ela sonha em morar fora do hospital.

Em dezembro último, pela primeira vez em 36 anos, passou o Natal fora do HC, na casa de amigos. Foi de maca e com respirador artificial portátil. “Foi uma experiência ótima, indescritível.”

Quanto ao livro, Eliana diz esperar que ele ajude “aqueles que não querem nada com a vida”. “É claro que cada um tem as suas dores. A minha desgraça não é maior que a sua nem a sua é maior que a minha. Mas é sempre bom poder aprender a tirar o que vale a pena da vida.”

Leia trechos
O dia em que o palhaço chorou
“Dr. Giovani fazia o possível para diminuir em nós a sensação de isolamento. Sempre com autorização da direção do HC, levou-nos a alguns passeios inesquecíveis.
Providenciava tudo: ambulância, cilindros de oxigênio, respirador portátil. Com ele, os meninos foram a parques e ao zoológico de São Paulo.
Mas nada pode ser comparado a nossa ida ao circo.
Conhecer o circo era um sonho. Dr. Giovani arrumou tudo, preparou a infraestrutura e nos levou — eu, Paulo, Tânia e Pedro — em duas ambulâncias. Mas naquela tarde caiu um temporal, faltou público e o espetáculo foi cancelado. Vendo nossa imensa frustração, o médico procurou o dono do circo, explicou a situação e o levou até nós, nas ambulâncias.
A reação foi imediata. A trupe nos maquiou como se fizéssemos parte do espetáculo e resolveu nos presentear com uma miniapresentação exclusiva. O encontro emocionou os artistas. A choradeira foi geral. Os palhaços conduziram o show sob lágrimas.”
Cláudia e a geografia
“Cláudia tinha a mesma idade que eu. Nascemos no mesmo ano. Eu em março, ela em abril. Só que a poliomielite a atingiu mais tardiamente. Fiquei doente antes dos dois anos, mas ela tinha mais de seis quando apresentou os primeiros sintomas.
(…)
Sentia-se num mundo estranho e, acredito, tinha esperanças de deixar o hospital e retomar o convívio dos pais. Os anos foram passando, e as visitas da família rareando até desaparecer. Depois da fase inicial, por um período de quase duas décadas, sua mãe veio ao HC apenas uma vez.
(…)
Mesmo assim, Cláudia os amava. Procurava justificar a ausência dos pais com o argumento de que moravam longe. Quando crescemos um pouco, já com dez ou onze anos, começamos a ter aulas. Uma das professoras, Elda de Lucca, nos deu as primeiras lições de geografia. Cláudia aproveitou:
— Tia, a casa dos meus pais é no Brasil?
— É sim, Claudinha. Eles são aqui da cidade de Campo Limpo Paulista, próxima a São Paulo.
— Mas isso é muito longe? – perguntou.
— Não, Claudinha. É perto.
— É como a casa da Eliana?
— Não. Pense assim: para virem para cá, os pais da Eliana demoram cinco horas. Saem de manhã e chegam só após o almoço. Os seus pais, se saíssem no mesmo horário, chegariam aqui em uma hora, antes de vocês tomarem banho.
Cláudia chorou durante uma semana.”
O abraço
“Adalberto foi protagonista de uma das minhas histórias mais marcantes. Eu tinha apenas oito anos e chorava desesperadamente. Ele entrou no quarto e perguntou o que estava acontecendo. Eu não sabia explicar. Solidão, tristeza, falta de carinho, dor. Tudo junto.
Tentou me consolar, mas eu chorava cada vez mais. Adalberto então enfiou um dos braços por trás das minhas costas, me ergueu um pouquinho e me enlaçou com força. Foi uma sensação maravilhosa. Jamais havia ganhado um abraço. Até hoje, nem mesmo meus pais jamais me abraçaram.”
Uma vida de partidas – sem poder partir
“Comecei a me dar conta de que a solidão e o sentimento de abandono me incomodavam mais que a própria doença e seus desdobramentos. A ficha começou a cair graças à população flutuante do IOT. Passei a me questionar: por que todo mundo tinha alta e ia embora? E por que a minha família não vinha me buscar também? Nessas horas, chorava muito.
O sentimento de abandono ficava ainda maior exatamente pela saída dos moradores e visitantes temporários. Quem trabalhava aqui, amigos dos amigos, pessoas que prestavam assistência religiosa e outros personagens saíam de nossas vidas da mesma forma que haviam entrado: de repente. Um por um, quase todos desapareceram, depois de termos criado algum tipo de laço.
Sei que a rotina de hospital, ainda mais numa UTI, não é das mais agradáveis… Muita gente nem tem estômago para entrar aqui. Perdi a conta de quantas pessoas desmaiaram na minha frente. Eu as entendo. Mas não consigo compreender por que alguns começam a nos visitar com constância, criam expectativas e depois desaparecem. São dezenas de casos assim. Pessoas a quem passamos a considerar nossas mães, pais, tios e irmãos. Claro que o sumiço, pelo menos da maioria, tem um motivo. Mas, quando nos apegamos a alguém, a dor da perda é muito grande.”

Fonte : Cláudia Collucci / Folha de São Paulo.

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone