O planeta que queremos

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Ao olhar para o mundo em 2012, observamos que ele continua cheio de oportunidades, mesmo se comparado com apenas dez ou 20 anos atrás. No entanto, ainda estamos em choque por causa da crise de 2008 – financeira, sim; porém uma crise mais sistêmica e de confiança. A colaboração global – cada vez mais um paradoxo -, infelizmente carece de apoio em áreas-chave, como comércio, finanças, pobreza, doenças, alimentação, água, clima e geopolítica. O mundo mais parece um vulcão, podendo explodir a qualquer momento.

O “Financial Times” começou o ano de 2012 com uma série intitulada “O capitalismo em crise”. Em um editorial, foi escrito: “O capitalismo ressurgente da década de 1980, sob a liderança de Ronald Reagan e Margaret Thatcher… provou-se não apenas instável, mas, em aspectos importantes, injusto”.

O capitalismo e a economia de mercado irão sobreviver apenas se houver reformas radicais, que são essenciais em instituições, políticas, cultura e mentalidades. Por isso, as ciências humanas são extremamente importantes

O capitalismo e a economia de mercado global irão sobreviver apenas se houver reformas radicais. As reformas são essenciais não só nas instituições e políticas, mas também em cultura e mentalidades – as formas como concebemos o planeta e como o queremos. Então, enquanto me preparo para me aposentar como diretor do Evian Group no IMD e como professor de política econômica internacional no IMD, ofereço alguns “pensamentos de despedida” que parecem pertinentes ao contexto global e à agenda Evian/IMD. São pensamentos sobre erros e como corrigí-los, a fim de tornar o planeta um lugar em que gostaríamos de viver, e também onde gostaríamos de ver nossos filhos e netos.

As armadilhas da complacência – os mandamentos do realismo sóbrio. É verdade que a crise poderia ser prevista, mas claro que não em seus pormenores exatos. Mas note a seguinte frase, de Joseph Stiglitz, em 2002, em ‘Globalização e suas insatisfações': “Hoje, o sistema capitalista está em uma encruzilhada, assim como esteve durante a Grande Depressão”. Nos anos que precederam a crise houve um senso de complacência generalizado nos círculos governamentais e empresariais, pelo qual pagamos caríssimo.

As elites precisam mudar. Exceto alguns indivíduos excepcionais; em termos gerais, o planeta tem sido mal servido por suas elites. O que é surpreendente é seu altíssimo grau de incompetência, além de aparentarem ser insensíveis. As muitas manifestações, como Occupy Wall Street, não são motivadas pelo ressentimento contra a riqueza em si, mas como a riqueza é obtida. Precisamos de elites novas ou reformadas, com mais competência, responsabilidade, sensibilidade, consciência e muito mais humildade.

O financeiro deve vir em segundo plano; e a economia real, em primeiro. Recentemente, tem sido o inverso – as finanças em primeiro plano e a economia real, em segundo. A menos que o financeiro seja domado, a crise do capitalismo vai continuar e, provavelmente, acabará arruinando o sistema. Este é um imperativo também para abordar o verdadeiro câncer que está destruindo as sociedades em todo o mundo: a injustiça.

O imperativo de uma luta unificada e bem-sucedida contra a injustiça. O sentimento generalizado de injustiça provém de níveis altíssimos (e crescentes) de desigualdade – não só de renda, mas de oportunidades de educação, saúde e meio ambiente. Atacar a injustiça social tem de ser responsabilidade de todos, principalmente das elites. Mentalidades e cultura precisam de uma mudança radical.

Restaurando o respeito ao serviço público e o senso de comunidade. Ao tomar posse, em janeiro de 1961, o presidente dos EUA, John Kennedy, declarou: “Não perguntem o que seu país pode fazer por você – pergunte o que você pode fazer por seu país”. Havia um pressuposto implícito da dignidade e obrigação do serviço público. Duas décadas depois, em sua cerimônia de posse, Ronald Reagan afirmou: “Nesta atual crise, o governo não é a solução para nosso problema: o governo é o problema”. Desde então, e até a crise atual, tem havido uma tendência para venerar o mercado e denegrir o governo.

Tem de haver uma ênfase muito maior no serviço público e comunidade. As pessoas com vantagem trazem benefícios aos menos favorecidos. São também os modelos que buscamos, e que constroem o planeta que queremos.

Trazer as ciências humanas de volta. Outra causa da crise do capitalismo é a marginalização das ciências humanas em favor de matérias e cursos mais “práticos”, como administração, contabilidade, marketing, etc. A elite reformada precisa ter uma base intelectual sólida e profunda. Para entender a condição humana e moldar o planeta que queremos, deveria haver muito mais estudos de história, geografia, literatura, arte, música, filosofia, antropologia, religião, etc.

Gerando a festa, não o choque de civilizações. O mundo não está se adaptando bem aos desafios da criação de uma aldeia global.

Elites ocidentais são, em sua maioria, muito mal preparadas para as transformações globais. Pouquíssimas têm experiência fora da Europa Ocidental e América do Norte; dificilmente falam chinês ou outras línguas asiáticas; e muito menos estudaram em universidades não-ocidentais. Este é outro aspecto fundamental em que precisamos de elites novas ou reformadas – aquelas que conhecem bem o planeta, e não apenas um canto dele!

Na criação da aldeia global, as ciências humanas são extremamente importantes. Não basta apenas ter conhecimento básico das fontes de cultura e civilização de uma sociedade, mas também uma “sensibilização” de suas atuais dinâmicas e aspirações. Isto pode ser realizado através da literatura contemporânea. Os conhecimentos obtidos também fornecem a possibilidade de se adquirir o fator tão essencial para a construção do planeta que queremos: a empatia.

Este último aspecto é o mais importante e relevante para a agenda Evian/IMD. Uma escola de negócios global precisa desenvolver alfabetização cultural global, compreensão e empatia. Embora a agenda Evian esteja focada principalmente no comércio, ela é bastante baseada na forte convicção filosófica de que um mercado global não pode funcionar sem uma aldeia global robusta.

Fonte:  Jean-Pierre Lehmann / Valor Econômico

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