Humanidade

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A cena, exibida há alguns dias no noticiário local e depois repetida no “Jornal Nacional”, não me sai da cabeça.O cadeirante tenta entrar em um ônibus equipado com um elevador para facilitar o acesso. Na primeira tentativa, o motorista alega não poder ajudá-lo porque não tem a chave que aciona o equipamento.
A empresa proprietária do veículo deve entender que está cumprindo a lei municipal que obriga todos os ônibus fabricados a partir de 2008 a terem o elevador. A lei, afinal, não estabelece que o motorista deva ter a chave que o aciona.
Na cena seguinte, outro ônibus para. O motorista tem a chave, mas não consegue fazer o elevador funcionar. Tenta uma, duas, três vezes, mas as engrenagens travam. Obviamente ele não recebeu o treinamento adequado para acionar o equipamento e não sabe o que fazer.
O que vem a seguir é de deixar qualquer pessoa que tenha o mínimo de respeito ao próximo de cabelo em pé.
Passageiros começam a reclamar do fato de o motorista ter parado o ônibus para tentar embarcar o cadeirante.
“Tenho hora, tenho que trabalhar”, reclama um. “O senhor não pode atrasar a viagem das pessoas que pagaram passagem”, diz outro.
Todos nós temos hora para trabalhar. Nenhum de nós quer chegar atrasado. É responsabilidade da empresa manter o equipamento em perfeitas condições de uso e treinar os motoristas para manejá-lo.
Mas o egoísmo de quem só se preocupava, naquele momento, com a própria vida, choca. Não se vê um sinal de solidariedade. Não aparece alguém que se disponha a ajudar a colocar a cadeira de rodas no ônibus – solução provisória, sim, mas que mostraria um pinguinho de preocupação com o outro.
Não se vê sequer uma gota de humanidade.
 
Por Cristina Grillo para a Folha de São Paulo.
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