Para a Eurolândia, um plano Marshall-Merkel

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Neste início de 2012, o mundo parece respirar aliviado com a calmaria nos mercados financeiros internacionais, ameaçados pela possibilidade de ruptura na região do euro, em razão de uma crise bancária, ou da insolvência de um país-membro, ou pela combinação de ambos os eventos. A estratégia de comprar tempo funcionou até agora, com a atuação do Banco Central Europeu (BCE) estendendo empréstimos de liquidez aos bancos, pelo prazo de três anos, com juros baixos e, ao mesmo tempo, adquirindo títulos soberanos no mercado secundário, evitando um acréscimo no custo da dívida pública dos países mais afetados pela turbulência global.

A provisão de liquidez estabilizou temporariamente os bancos europeus e o mercado de títulos públicos, criando a oportunidade para que os agentes políticos pudessem avançar na busca de soluções permanentes para a verdadeira causa dos problemas: a questão dos desequilíbrios econômicos fundamentais entre os países-membros do Grupo do Euro.

Tais desajustes normalmente determinariam a desvalorização da taxa de câmbio dos países devedores e/ou a valorização da moeda dos credores, o que não pode ocorrer na região da moeda única. Resta a alternativa de medidas de contração de demanda nas economias devedoras, exigindo cortes nos gastos públicos, queda de salários nominais e de preços, desemprego e restrições no nível de atividade econômica. Essa solução, todavia, padece da falácia da composição: se cada devedor reduz a atividade econômica individual ao mesmo tempo, o bloco como um todo permanecerá estagnado e isso terá repercussões negativas para os demais blocos e para a economia global.

Um plano de recuperação europeia pode significar uma alternativa menos dolorosa do que os ajustes recessivos individuais propostos até hoje. A experiência bem-sucedida do Plano Marshall fornece uma analogia para a análise do quadro atual. Como se sabe, aquele plano representou uma iniciativa norte-americana para ajudar na reconstrução das economias europeias, devastadas pela 2.ª Guerra Mundial. Na prática, ele funcionou como um programa generoso, com a duração de quatro anos, de doações e empréstimos com juros baixos, dos EUA para países aliados cuja infraestrutura econômica estava em frangalhos. Aqueles recursos permitiram que os europeus importassem dos EUA e de outros países, inclusive do Brasil, alimentos, roupas, matérias-primas, fertilizantes, máquinas agrícolas, equipamentos e bens de capital necessários à reconstrução da economias da Europa Ocidental.

Além da motivação ideológica e estratégica de conter a ameaça comunista no mundo pós-guerra, o Plano Marshall teve um sólido objetivo econômico claro: a criação de mercados para os bens e serviços produzidos na economia norte-americana, então a grande vitoriosa do conflito bélico. O plano foi bem-sucedido: com transferências equivalentes a pouco mais de US$ 200 bilhões (a preços de 2006), a iniciativa foi capaz de facilitar a recuperação das principais economias europeias, fomentando as exportações e o nível de atividade econômica e de emprego nos EUA.

A situação atual mantém uma semelhança com o período pós-2.ª Guerra. Não houve a destruição física das fábricas, instalações e infraestrutura, como no caso dos países abalados pelo conflito mundial. Mas a crise financeira afetou com mais intensidade a periferia dos países da região do euro, destruiu empregos, renda e atividade econômica, mantendo o nível de produção abaixo da capacidade produtiva das economias nacionais. Ademais, os programas macroeconômicos em andamento só tendem a piorar a situação, ao impor todo o ônus dos ajustes sobre os devedores.

A reedição de um programa semelhante ao Plano Marshall poderia ser uma alternativa mais eficiente do ponto de vista econômico e politicamente aceitável para os países mais afetados pela crise, sem levar a uma ruptura do contrato social implícito na moeda única. A Alemanha, a maior beneficiária da criação do euro, poderia desempenhar na crise atual o mesmo papel de liderança exercido pelos EUA naquele esforço de reconstrução europeia.

Não se trata de apelar à generosidade do povo alemão para com seus vizinhos do sul da Europa. Ao contrário, o que está em jogo é a preservação de mercados para os bens e serviços alemães dentro da região do euro. Em outras palavras, nada que ofenda as regras da economia de mercado e muito menos os princípios éticos vigentes na sociedade alemã. Um programa de doações e de financiamentos a juros baixos e a prazos longos, administrado por uma agência financeira multilateral, como por exemplo o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, poderia promover a recuperação das economia europeias mais afetadas pela crise.

Como lidar com a espinhosa questão do risco moral implícito em programas de transferência de renda entre países e com a ideia de que se está beneficiando os mais ineficientes e/ ou gastadores em detrimento dos mais produtivos e/ou poupadores? O programa poderia exigir condicionalidades não financeiras, por exemplo, como mudanças no mercado de trabalho, para aumentar a produtividade, tornando as economias mais competitivas. De qualquer maneira, a proposta, embora possa parecer ingênua, pode oferecer resultados mais rápidos do que o longo inverno de descontentamento implícito nos atuais programas de ajuste.

Fonte: Alkimar R. Moura / O Estado de S.Paulo

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