O Lehman Brothers não era apenas um banco grande demais para quebrar

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O Lehman Brothers não era apenas um banco grande demais para quebrar. Era uma instituição tradicionalíssima, de 158 anos, cuja trajetória se entrelaçava e se confundia com a construção do império americano. Uma história tipicamente americana: a dos imigrantes pobres – no caso, judeus alemães -, que trabalharam muito duro, enfrentaram crises, aproveitaram as oportunidades e ficaram ricos, cujas futuras gerações puderam se dedicar às artes, à cultura e à política. Até que não sobrou nenhum Lehman para contar a história. E a gestão passou às mãos dos executivos profissionais de Wall Street. Quem a conta, no livro “Nos Bastidores do Lehman Brothers”, é o editor de finanças do “Financial Times”, Peter Chapman.

O fundador do banco, Henry Lehman, chegou a Nova York em 11 de setembro de 1844, vindo da Bavária, na época um Estado separado da Alemanha, aos 22 anos de idade. A ele se juntou primeiro o irmão Emmanuel e, mais tarde, o caçula Mayer. Henry foi direto para o Alabama, berço do algodão, a mercadoria mais valiosa dos Estados Unidos na época. Tornou-se bem-sucedido mascate. Percorria a região, numa carroça, vendendo ferramentas, vidros, cerâmica e sementes. A moeda de troca era o algodão. Logo os irmãos se tornaram comerciantes da commodity. E perceberam que os grandes fazendeiros de algodão precisavam de um banco local onde fazer os seus depósitos. Seis anos depois do desembarque em Manhattan, criaram o banco Lehman Brothers. Henry contraiu febre amarela e morreu em 1855. Mayer, com 26 anos, ficou no Sul. Emmanuel, 29, foi para Nova York.

Chapman esmiúça como o banco ajudou a dar forma ao mercado financeiro americano, relata sua ascensão e sua queda, e vasculha as razões de sua morte, que se podem resumir nesta frase do autor: “Uma instituição outrora nobre foi pega vendendo lixo para o mercado”.

O banco participou e ajudou a fazer a história econômica dos Estados Unidos, esteve ativo nas fases de euforia dos mercados e sofreu com as depressões, os momentos de “crash” e foi alvejado pelos estilhaços de várias crises bancárias. O livro também conta a história de como a regulamentação americana dos bancos se tornou progressivamente mais rígida a partir da crise bancária de 1933. E como foi desmantelada a partir do governo Ronald Reagan. Foi o afrouxamento das normas que tornou possível a proliferação dos títulos tóxicos e o escândalo do subprime, desencadeando uma crise monumental em 2008.

Por que o Lehman foi a pique quando rivais, como Goldman Sachs e Morgan Stanley, sobreviveram? A explicação deriva da atuação dos protagonistas da hora.

Bobbie Lehman, neto de Emanuel, era amante das artes, dos esportes, gostava de viajar e abominava o mundo de Wall Street. Mas foi ele o Lehman que mais impulsionou o crescimento do banco. Seu reinado começou em 1925 e foi até 1969. Formado em Yale, Bobbie preferia cultivar sólidas amizades e laços políticos, em vez de ganhar o dinheiro fácil das corretagens, uma especialidade do seu concorrente Goldman Sachs. Morreu aos 77 anos, sem formar um Lehman como sucessor. O banco foi tocado por funcionários, primeiro por Frederich Ehrman, depois por Pete Peterson e Lew Glucksman.

Já no começo da gestão Peterson, um corretor se destacava. Era Richard Fuld, o oposto do ideal do que deveria ser um banqueiro segundo os princípios de Bobbie Lehman. Foi com Fuld na presidência, posição à qual chegou em 1993, que o Lehman pediu falência em setembro de 2008. De personalidade agressiva, Dick Fuld passava de 12 a 15 horas por dia na frente de uma tela de computador, entregue à tarefa de arriscar o dinheiro que tomava emprestado. Na presidência, sua primeira providência foi adotar o verde do dólar como cor símbolo do banco. E instava seus subordinados a “sangrar verde” pela empresa. No seu discurso de posse, prometeu “destruir nossos inimigos”. Na época, os principais concorrentes eram o Goldman Sachs, o Morgan Stanley e o Merrill Lynch. E mostrou os dentes, como se estivesse rosnando. “Era uma tentativa de Dick fazer humor ou de encobrir o constrangimento que sentia quando precisava falar em público?”, pergunta o autor do livro. “Por um momento, ele pareceu meio louco.”

Depois da saída de vários sócios relevantes, como o American Express, Fuld transformou o Lehman numa típica casa independente de corretagem, cuja maior parte da receita provinha da negociação de bônus. Só perdia para o Morgan Stanley na venda de bônus hipotecários. Logo de início, demitiu mil funcionários, cortou as despesas de táxi e o almoço grátis. E tentou mudar de estilo. Publicamente, passou a defender ideias de relacionamento com os clientes mais próprias de um banqueiro do que de um corretor cujo apelido em Wall Street era “gorila”. Foi uma tentativa de resgate da herança deixada por Bobbie Lehman. Dick queria que o novo rosto do Lehmam esculpido por ele fosse o de um banco de investimento completo, não de um negociante de títulos de segunda linha.

Num primeiro momento, até 1997, a estratégia parecia ter dado certo. Com o tempo, Fuld voltou às origens, não as do Lehman, mas às suas. Gradualmente, desligou o banco de suas origens. Instituição que nasceu para negociar commodities, acabou por abandonar os mercados tradicionais, inclusive o algodão, e se concentrou nos bônus de hipoteca e nos fatídicos CDOs (“collateralized debt obligations”). “O Lehman sob Fuld tinha uma cultura corporativa parecida com a de uma ordem monástica: um grupo de pessoas bastante unidas com um conjunto rígido de valores”, comenta Chapman.

Nem a dramática quebra do Long-Term Capital Management (LTCM), em 1998, despertou Dick Fuld para a artificialidade da negociação alavancada de bônus. Todos os bancos de investimento, incluindo o Lehman, investiram no LTCM, porque tinha inventado uma forma infalível de gerar rentabilidade. Tão infalível quanto, se acreditaria anos depois, seriam os CDOs lastreados em hipotecas subprime. Enquanto Bobbie Lehman apostava no “ser humano”, Fuld colocava todas as fichas na “fórmula mágica”. Na fórmula dos gênios Myron Scholes e Robert Merton – dois prêmios Nobel que criaram o LTCM – Fuld tinha perdido US$ 1 bilhão. E teve o dissabor de desmentir que o Lehman estava em bancarrota.

A lição real não foi apreendida. Como o governo americano organizou uma operação de salvamento do LTCM, o que parece ter ficado de ensinamento é que tudo se permite, enquanto as autoridades estiverem dispostas a socorrer os espertos. Em 15 de setembro de 2008, o Lehman não recebeu ajuda. Seu endividamento foi frenético mesmo quando, em 2006, o mercado imobiliário já emitia sinais de esgotamento. Naquele ano, o banco devia US$ 480 bilhões (o dobro do endividamento externo brasileiro, este totalmente coberto por ativos), valor cerca de 32 vezes superior ao seu capital.

Fuld não era “meio” louco: estava tomando dinheiro emprestado para comprar tudo que via pela frente num momento de preços artificialmente sobrevalorizados. A bola de neve continuou montanha abaixo. Sua velocidade de queda não diminuiu nem quando, em março de 2008, o Bear Stearns foi acudido por um pacote oficial e uma incorporação ao JP Morgan. Pouco antes do naufrágio, a dívida do Lehman superava os US$ 700 bilhões. Antigo, grande e endividado demais para quebrar? O Tesouro quis usar sua derrocada como exemplo para o restante do mercado. E os Estados Unidos afundaram junto.

Fonte:  Luiz Sérgio Guimarães / Valor Econômico

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