Uma tragédia sepultada
Como jornalista, o carioca Mauro Ventura, de 48 anos, tem uma qualidade que deve nortear os princípios dessa profissão: um olhar sensível para apurar e escrever histórias. Isso está mais que evidenciado no seu novo livro, “O Espetáculo Mais Triste da Terra”, exemplo de investigação jornalística que, no seu caso, tinha poucas chances de ser bem-sucedido. O motivo: ele escolheu como tema uma tragédia ocorrida há meio século, em 17 de dezembro de 1961, em Niterói, capital do então Estado da Guanabara. Naquele dia, em apenas dez minutos, durante uma tarde muito quente e ensolarada de domingo, o Gran Circo Norte-Americano pegou fogo e matou 509 pessoas, segundo números oficiais – ainda hoje questionados para cima.
Mesmo tanto tempo depois, Ventura e uma ajudante conseguiram localizar e entrevistar 150 pessoas, após muita persistência, pois ninguém, a princípio, queria se lembrar de algo tão terrível. Alguns depoimentos vieram de entrevistados com mais de 90 anos de idade, como Santiago Grotto, um dos três trapezistas que tinham acabado de se exibir quando o fogo começou e único ainda vivo. E o médico Fortunato Benaim, que veio da Argentina para ajudar a socorrer as vítimas. A façanha já bastava para deixar seu relato interessante. O autor, porém, leva quem o lê para debaixo da lona, como num filme, tamanho o realismo e a quantidade dos relatos detalhados de sobreviventes e testemunhas.
A sensação é de que tragédia se materializa o tempo todo diante do leitor e o faz imaginar que está num espaço de 50 metros de diâmetro, onde cerca de 3 mil pessoas – a maioria crianças – lutam para sair vivas daquele inferno em chamas. Somam-se a isso os casos sobre a capacidade das pessoas de se mobilizarem para salvar vidas. Muitos médicos ficaram uma semana sem ir para casa e sem dormir.
Há passagens fortes, sem melodramas ou pieguices. Como a revelação feita por um médico de que o presidente João Goulart, quando viu as crianças queimadas no hospital, teve uma crise de choro. Ou o médico que, sem saber que a filha de 4 anos tinha ido ao circo, identificou seu corpo pela calcinha que vestia. E, mesmo assim, foi para o hospital ajudar os pacientes.
Nunca se descobriu a causa do incêndio. Se foi acidente ou crime. Dois dos principais suspeitos tinham problemas mentais. O fato mereceu destaque por dias em todo o mundo, já que nunca acontecera algo tão terrível em circos. Na luta contra as queimaduras, a catástrofe ajudou a projetar a importância da cirurgia plástica no país, em especial o nome de Ivo Pitanguy (com uma grande equipe de voluntários), na reconstituição das vítimas desfiguradas. Ele conseguiu com a Marinha americana a doação de milhares de centímetros de pele desidratada – de soldados mortos em guerras – para queimados em estado grave, experiência em grande escala que nunca tinha sido tentada antes.
Nesse caos impressionante, Ventura faz sobressaírem as contradições de uma época, com seus heróis, vilões, vítimas, oportunistas e atitudes de grande amor ao próximo. Como ele mesmo diz, vivenciou a experiência mais terrível da história de Niterói, que os moradores transformaram num tabu para poder tocar a vida.
Fonte: Gonçalo Junior / Valor Econômico










