Uma mulher para todas as estações

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Santo Agostinho disse que Deus escreve com o dedo: “É pelo dedo de Deus, de fato, que a Lei foi escrita, mas, em virtude dos corações duros, ela foi escrita na pedra”.

E você, a dedilhar textos, deixando de lado canetas e lápis? Já pensou que está a competir com Deus? Não proteste. Apenas reproduzo o recado vindo do papa Bento XVI, em sermão no qual advertiu os católicos de que o maior pecado do mundo é competir com Deus e ocupar o seu lugar. Repito a mensagem, mesmo duvidando que o uso do dedo no ato de escrever nos leve a ocupar o trono do Todo-Poderoso. Por que duvido? Está na cara: embora o coração do homem continue tão duro como outrora, nem por isso nossas criações ficam gravadas na pedra. Pelo contrário, voam para a nuvem digital, de braço dado com os “hyperlinks”.

Ainda assim, da mesma forma que o coração duro do homem, muita coisa não mudou desde a antiguidade. Vê o caso da xenofobia. Para os gregos, quem não falasse sua língua era bárbaro; para os judeus, o não circuncidado era gentio; para os mulçumanos, quem não acreditava em Maomé era infiel e adorador do fogo. Para o brasileiro, o americano é gringo.

Heródoto conta que o grego – homem acostumado a enterrar seus mortos – e o “callatian” – homem acostumado a comer os seus – se encontraram e reagiram com nojo ao ritual do outro. O horror mútuo demonstra que não se pode declarar o próprio costume superior ao do estrangeiro. Você há de concordar comigo que essa reflexão de Heródoto sobre o relativismo cultural o distancia do etnocentrismo comum ao grego da antiguidade, que se acreditava superior não só ao bárbaro, mas também à mulher.

Naquela sociedade, marcada pela dominância masculina, a mitologia colocava na fronteira do mundo civilizado qualquer figura feminina que virasse de ponta-cabeça o papel do sexo frágil. Para enfatizar a natureza estrangeira e pervertida da amazona, o mito a assentava no Mar Negro. Ou era na Etiópia? De qualquer forma, fora da tradição civilizatória. Afinal, a amazona invertia cada um dos papéis femininos e cada um dos comportamentos adequados à mulher na Grécia antiga. Era guerreira e lutava com os homens em pé de igualdade; fazia sexo sem se casar; preferia as filhas aos filhos; e, quando tinha um bebê do sexo masculino, podia matá-lo, castrá-lo ou vendê-lo como escravo.

Em algum momento da vida, cada um dos grandes heróis gregos se encontrou com uma amazona. Teseu, Aquiles e Héracles (que a versão romana chamou de Hércules) enfrentaram uma amazona em batalha. A interação entre o herói e a amazona botava a mulher de volta em seu lugar, pois o herói sempre a derrotava e, ao fazê-lo, a tornava feminina. Teseu venceu a amazona Hipólita, resultando daí o casamento dos dois. Aquiles, ao ver Pentesileia (amazona a quem ferira mortalmente) cair do cavalo, por ela se apaixonou.

O que está por trás do mito das amazonas talvez seja o medo masculino de que a mulher possa controlar a reprodução e impedi-lo de ter filhos. A matança dos próprios filhos pela amazona, que o mito de Medeia repete, é a forma exagerada desse controle e nos remete à ideia de que o rapto e estupro das mulheres na antiguidade mostram não o desejo sexual masculino, mas a vontade do homem de controlar a fertilidade.

Como a amazona, Medeia era estrangeira e vivia perto do Mar Negro. Embora não fosse combatente, pois seus poderes se concentravam na feitiçaria, era capaz, quando necessário, da violência física do soldado. Ao fugir com Jasão, para atrasar o pai que a perseguia, não hesitou em matar o irmão e cortá-lo em pedacinhos, que o pai teve de recolher, remendar e enterrar.

Medeia lembra a amazona ainda por outra razão: seu poder assustador não a torna menos desejável. Na verdade, o nome “Medeia” significa tanto “genitália” quanto “planos inteligentes”, igualando poder sexual à fraude sedutora.

A conexão entre o perigo e a mulher atraente se repete nas histórias das belas que são transformadas em monstros. Quando Posêidon, rei dos mares, estupra Medusa no templo de Atena, a deusa dá à vítima uma cabeleira de cobras. Atena pune quem sofreu o crime e não quem o cometeu. Naquela época, ações não contavam e sim seus resultados. Medusa deflorada merece castigo. Assim como a beleza, essa serpente que, em silêncio, espreita e tenta homens e deuses.

Não lhe conto essas histórias de mulheres monstruosas para lhe fazer medo. Adianto aonde quero chegar: estabelecer o contraste entre o poder da mulher que fascinava os gregos e o choro da neofeminista a se lamentar do salário que não dá para comprar bolsa de grife. A desculpa para essa recente falta de sucesso já virou clichê: “As mulheres não gostam de competir”, lamentam-se as insatisfeitas. Para desmentir o clichê, olhe à sua volta ou consulte a história. Pode começar na Idade Média.

Naquela época, para reinar na Inglaterra, as mulheres não hesitavam em agir com firmeza e brutalidade. No século XII, Matilda não se intimidou quando a acusaram de insolente por deixar de lado o comportamento modesto mais apropriado ao seu sexo. Eleanor da Aquitânia rebelou-se contra o marido (o rei Henrique II), vestiu-se de homem e acabou na cadeia, coitada. No século XIV, Isabela depôs e assassinou o marido, o rei Eduardo II, e reinou durante três anos (pouco tempo, eu sei, mas melhor do que nada). No século XV, Margarete de Anjou lutou como pôde contra seus rivais masculinos a ponto de merecer de Shakespeare o apelido de “loba da França”.

Não nego que as mulheres sofreram desvantagens ao longo da história, ponto que Simone de Beauvoir e Virginia Woolf argumentaram com perfeição, porque correspondia à verdade da sociedade do século passado, quando elas viveram. E as “suffragettes” – que, ainda antes de Woolf e Beauvoir, tomaram as ruas em defesa do voto feminino – percebiam o mundo com mais clareza que as neofeministas do século XXI.

Herança e raça falam mais alto do que o sexo na determinação da posição na sociedade ocidental de hoje. Coloco na balança alguns pesos: ter nascido no Brasil e não na Etiópia, viver no século XXI e não na Idade Média, ter doutorado em vez de curso primário. Cada um desses fatores pesa mais do que meu sexo na determinação de meu status econômico e cultural.

O progresso feminino nos últimos 40 anos é visível nos países ricos, onde hoje os homens ajudam a cuidar das crianças em casa e são assalariados em atividades antes consideradas femininas, como a da professora na creche. Diferenças persistem entre a afegã coberta pela burca no mercado de Cabul e a brasileira exposta pelo fio-dental na praia, entre a adúltera condenada à morte por apedrejamento no Irã e a acadêmica sueca.

Vale a pena examinar o argumento das neofeministas de que, no mundo inteiro, as mulheres trabalham mais do que os homens e ganham menos do que eles, exibindo estatísticas que ocultam mais do que iluminam. O fato encoberto pela média é que apenas uma minoria entre as mulheres tem uma carreira igual à dos homens (ganhando tanto quanto eles), enquanto a maioria das mulheres tem apenas um emprego, que organiza em torno das necessidades da família.

Entre as mulheres educadas, a situação é hoje o oposto do que era nas décadas de 1960 e 1970, quando começamos a queimar nossos soutiens. Segundo o censo americano, a mulher tem hoje uma renda maior do que a do marido entre 22% dos casais com mais de 30 anos. E as mulheres com menos de 30 anos ganham, em média, mais do que os homens da mesma idade, nas 150 maiores cidades dos Estados Unidos. No Brasil, as mulheres ricas da geração da minha neta têm tanto sucesso na universidade, independência financeira e empenho em gozar a própria liberdade quanto os rapazes da mesma idade.

A vida é muito diferente para mulheres carentes em países pobres. Aqui podemos fazer diferença se nos empenharmos para que todas tenham acesso à educação de qualidade, em vez de espalhar o boato de que ganhamos menos porque não gostamos de competir. Lamentável na verdade é que o consumismo tenha achatado as aspirações femininas.

Fonte: Eliana Cardoso/Valor Econômico.

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