Uma equação vencedora
Um grupo de professores conseguiu a façanha de formar jovens campeões de matemática em locais de adversidades e com os piores indicadores de ensino do país. Eles combinaram seu esforço com meritocracia.
Violência, indisciplina e precariedades tão básicas como falta de livros e luz são alguns dos obstáculos enfrentados diariamente pelos professores que ilustram as páginas desta reportagem. Eles seriam iguais a tantos outros não fosse o nível de excelência que alcançaram em sala de aula. E numa disciplina tão temida quanto odiada. O sucesso desse grupo foi verificado na última Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, que reuniu 19 milhões de alunos, 0,02% deles laureado com medalhas. No ranking que mediu o desempenho dos docentes de todo o país – com base nas notas de seus alunos na competição -, tais professores ocupam o topo da lista de seus estados. Outros no Brasil emplacaram até mais estudantes no pódio, mas o feito desses aqui retratados foi considerado extraordinário pelo cenário no qual emergiram: seus estados colecionam os piores indicadores de ensino na área. “Eles são a prova de que é possível lapidar talentos para os números mesmo em lugares que mais parecem desertos de ideias”, diz Jacob Palis, do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, que organizou a olimpíada.
Intuitivamente, esses professores implantaram em suas escolas práticas consagradas em países que oferecem um ensino de matemática de alto nível. Só conseguiram isso porque não se deixaram paralisar pelas adversidades de ordem prática nem por bandeiras ideológicas que tentam banir o princípio da meritocracia do ensino brasileiro. Ao contrário, souberam cultivar talentos acima da média. “Quando percebo que um aluno tem aptidão para os números, não penso duas vezes: eu o incentivo a resolver problemas cada vez mais complexos”, conta Antônio de Pádua Queiroz, de 56 anos, que assim conseguiu fazer de Erick Rodolfo Trindade, de 15, um dos dois medalhistas da escola municipal Oneide de Souza Tavares, na região metropolitana de Belém. Com as aulas extras que deu ao jovem, o professor despertou sua atenção para uma carreira que ele nem sequer cogitava: a de professor da disciplina.
Várias pesquisas já sinalizaram que o que mais angustia os alunos em relação à matemática são as fórmulas despejadas na lousa sem nenhuma conexão com o mundo real. Um grande erro. Diz o americano John Allen Paulos, autor do livro Innumeracy (em português, algo como “analfamatematismo”): “Não são as fórmulas que limitam a liberdade de pensamento, e sim a incapacidade dos professores em usá-las para traduzir o mundo em que vivemos”". Da cidade de Coruripe, a 80 quilômetros de Maceió, vem um bom exemplo de como, à base de iniciativas bem simples, os alunos passam a ver um propósito prático nas equações da lousa. Na escola municipal General Gois Monteiro, Djalma Nascimento, de 43 anos, sedimenta conceitos de trigonometria calculando ângulos nas dependências do colégio. “Com esse tipo de aplicação, meus alunos perderam o pavor da matemática”. comemora o professor, que emplacou dois deles entre os medalhistas da última olimpíada.
O grupo de professores campeões constitui, antes de tudo, um exemplo de esforço. Egressos de famílias pobres, eles tiveram o diploma universitário festejado como um troféu pelos parentes, que, em sua esmagadora maioria, não foram tão longe. Seu desempenho universitário contrasta com o do típico estudante que conclui o curso superior de matemática no Brasil – a média no último exame aplicado pelo Ministério da Educação não passou de 27 em uma prova que vale 100. Está aí a raiz do péssimo ensino da disciplina. Diz o doutor em matemática Elon Lages Lima, autor do livro Matemática e Ensino: “A maioria dos professores nem sequer domina os fundamentos da matéria que ensina”.
O mau ensino dos números é um obstáculo e tanto para que o Brasil comece a sonhar em ser um país que produza inovações científicas em grande escala. Para ter uma medida do atraso nesse campo, em 2010 os chineses solicitaram o registro de mais de 12000 patentes – 25 vezes o número brasileiro. Nas economias emergentes, é crescente a demanda por matemáticos e profissionais afins. Tudo isso só reforça a necessidade de multiplicar os bons exemplos dos professores que despontaram na última olimpíada. O Brasil precisa de gente como Greiciane Lima, que, com apenas 25 anos, aparece no topo do ranking de docentes do Maranhão. Ela encara seu ofício como uma missão: “Quero formar um batalhão de bons matemáticos”. Bons matemáticos são aqueles que enxergam na sua área não apenas verdade, mas “suprema beleza – a beleza fria e austera, como a da escultura”. A frase é do filósofo, historiador – e matemático – inglês Betrand Russell.
Por Gabriela Roméro e Helena Borges para a revista Veja.










