Uma Babel no Câmpus

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

À frente da área acadêmica de Yale, uma das melhores universidades do mundo, nos Estados Unidos, o doutor em psicologia Peter Salovey, 53 anos, impõe-se como desafio visitar com freqüência as instituições no topo dos rankings do ensino no mundo. Ele vai a caça de idéias e cérebros. “ A sala de aula precisa ser globalizada para formar gente capaz  de lidar com as complexidades do mundo”, diz. Na década de 90, ele celebrizou-se por cunhar o termo inteligência emocional, difundido anos mais tarde por Daniel Goleman, autor de um Best-seller sobre o tema. “A diferença entre nós é que Goleman não é cientista”, alfineta Salovey.

Campus Globalizado – Qualquer universidade que pretenda preparar jovens para lidar com as complexidades do mundo de hoje deve incentivar de forma radical sua interação com outras  economias e culturas. Sem isso estará falhando em seu papel fundamental, de abastecer o mercado com gente capaz de colocar as questões em perspectiva global. Em meus périplos, observo que as melhores instituições já vão nessa linha. Em Yale, ajudamos os alunos a encontrar boas faculdades no exterior, onde possam passar uns tempos estudando, ou até estágiosem empresas. Quase todos os nossos alunos já tiveram uma experiência desse tipo. Também nos esmeramos para atrair estudantes e professores estrangeiros, disputando os melhores com outras universidades que estão no topo do ensino. Ao garimpar talentos  em todo o mundo, aumenta exponencialmente as chances de achar gente brilhante. Além disso, enriquecemos a experiência da sala de aula de forma decisiva.

A onda chinesa – Acho que todas as universidades deveriam se empenhar em atrair chineses. Primeiro, porque ainda temos muito que decifrar sobre seu modo de pensar e agir, essencial para podermos nos relacionar com eles. Não dá para prescindir disso na atual organização da economia mundial. Os chineses também nos trazem o exemplo de um apreço fora do comum pelas ciências exatas, traço que compartilham com outros asiáticos. É algo que  todos os países devem  hoje cultivar em alto grau, para que se tornem produtivos e inovadores.

Brasil entrou no mapa – Quando eu e meus colegas pensávamos no Brasil, uns anos atrás, vinha à mente uma caricatura: era o país do samba e dos gênios do futebol. Sabíamos muito pouco sobre os brasileiros e nos satisfazíamos com isso. O verdadeiro interesse ficava restrito a algumas rodas de acadêmicos. Isso está mudando rapidamente. Nossos estudantes já querem aprender português e estudar história do país, uma economia que cresce e tem potencial para se sobressair. È por isso que decidi visitar agora o Brasil, com a idéia de estreitar laços entre Yale e certas universidades. Considero até a possibilidade de, quem sabe um dia, abrir um campus aqui em parceria com alguma instituição local.

Nobel na sala de aula – Descobrimos em Yale que não bastava contar com um grupo de prêmios Nobel para chegarmos ao topo. Eles precisavam deixar de estar reclusos em seus laboratórios e encarar a sala de aula como os outros. Atualmente, todos, sem exceção, são obrigados a ensinar na graduação. A princípio, alguns não gostam da idéia, mas é interessante como foram exercitando e lapidando a habilidade de lecionar. O nível de ensino disparou. Na maioria das universidades, os melhores cérebros acabam ficando limitados à pesquisa acadêmica. Um desperdício. A experiência de Yale e de tantos outros centros de alto nível deixa claro que eles estão perdendo uma grande oportunidade de avançar.

Choque de currículo – No modelo de ensino superior mais difundido no mundo, os jovens são obrigados a optar por uma carreira em um momento da vida em que só uns poucos já têm maturidade. È improdutivo, uma vez que grande parte acaba mudando de rumo. Por isso, defendo e aplico em Yale um sistema bem mais flexível, a exemplo de outras universidades americanas. Os dois primeiros anos são como um ensaio para o que virá, um período em que os jovens são expostos à cultura geral em áreas diversas e treinados em habilidades intelectuais valorizadas no mercado – como rapidez na solução de problemas, boa expressão na língua materna e trabalhoem equipe. Um pouco mais bem sedimentada, aí, sim, podem se especializar. Tem funcionado muito bem.

A outra inteligência – Até a década de 80, os psicólogos acreditavam que as emoções eram irracionais, como instintos animais. Havia então uma única definição de inteligência, a do QI. Com a pesquisa que fiz ao lado de meu colega John Mayer, descrevi cientificamente uma nova modalidade. Conseguimos demonstrar que um conjunto de habilidades emocionais afetava positivamente o raciocínio, levando a ações, digamos, mais inteligentes. A inspiração para o trabalho veio da obra de Charles Darwin (naturalista inglês. 1809-1882). Ele já falava sobre como as emoções provocavam reações sábias na espécie humana. Se um homem fugia de um animal ferroz , não era por seu senso analítico, dizia Darwin, mas porque sentia medo e corria do perigo. A princípio, minhas idéias não tiveram boa acolhida no meio acadêmico. Depois de publicado, o paper seria citado por mais de 4000 estudiosos, desbravando um campo inteiramente novo de pesquisa.

Daniel Goleman não é cientista – O Best-seller do psicólogo Daniel Goleman, que saiu cinco anos depois de meu artigo sobre inteligência emocional, tem o mérito de traduzir um estudo acadêmico para uma linguagem mais acessível. Mas contém uma fragilidade grave. Goleman não se apóia em um levantamento científico para afirmar que 80% do sucesso de alguém se deve à sua inteligência emocional e apenas 20% ao QI. O que sabemos é que, considerando-se um grupo de pessoas com nível intelectual muito parecido, essas características ligadas ao lado direito do cérebro fazem enorme diferença de desempenho. E podem ser lapidadas para que funcionem melhor. Entendo, porém , que para vender livros aos milhões é preciso empacotar o assunto de forma mais simplificada e atraente possível.

Por Renata Betti para a revista Veja.

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Share on LinkedInTweet about this on TwitterEmail this to someone