Um Cão Andaluz e A Idade do Ouro

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Adoro sonhar. Esse amor descomedido pelo sonho foi uma das inclinações profundas que me aproximaram do surrealismo. Um cão andaluz nasceu do encontro de um de meus sonhos com um sonho de Dalí.

-Luis Buñuel-

 

Em 1925, Luis Buñuel, encerrou seus estudos na Instituição Livre de Ensino, deixou Madri e foi trabalhar em Paris como secretário da Sociedade Internacional de Cooperação Intelectual. Conviveu com intelectuais do porte de Miguel de Unamuno, conheceu Picasso e começou a freqüentar o café Cyrano, ponto de encontro dos expoentes do movimento surrealista. Buñuel afirma em suas memórias que os seus encontros com André Breton – lançador do manifesto surrealista e líder do movimento – Max Ernst, Paul Éluard, Tristan Tzara, Man Ray e Magritte foram essenciais e determinantes para o resto de sua vida.

André Breton em 1924

Ao final do ano de 1926 ele escreveu uma pequena peça teatral chamada Hamlet. Ela foi apresentada no porão de um café, sendo a primeira experiência de Buñuel como diretor. Na ocasião, a Sinfônica de Amsterdã, conduzida pelo genial maestro Willem Mengelberg, iria apresentar um concerto que seria encerrado com El Retablo de Maese Pedro, obra curta de Manuel de Falla, extraída de um episódio de Dom Quixote. Através do pianista Ricardo Viñes, amigo de Mengelberg, Buñuel foi convidado para dirigir a cena. Ele iria trabalhar com um maestro de reputação mundial e cantores notáveis.

O retablo é na realidade o teatrinho de um manipulador de marionetes. Todos os personagens são bonecos dublados pelas vozes dos cantores. Buñuel inovou, introduzindo quatro personagens vivos, dissimulados por máscaras, também dublados pelos cantores. O espetáculo foi exibido durante uma semana, em Amsterdã, diante de salas cheias.

Mas o cinema o fascinava mais do que o teatro. Buñuel assistia três ou quatro filmes por dia. Seus diretores prediletos eram Eisenstein, Pabst, Murnau, mas acima de tudo Fritz Lang. Sua vocação para fazer cinema cristalizou-se após assistir A morte cansada (Der müde Tod), Os nibelungos (Die Nibelungen) e Metropolis.

Buñuel passa a trabalhar como assistente de Jean Epstein, um dos mais famosos diretores do cinema francês. Este lhe deu um conselho: Abra o olho. Percebo tendências surrealistas em você. Afaste-se dessa gente.

Em 1929, Buñuel decidiu produzir seu primeiro filme, Le chien andalou. O roteiro foi escrito por ele e Salvador Dalí, baseados em sonhos que eles tiveram. Por se tratar de um filme totalmente insólito e provocador, nenhum sistema normal de produção iria bancá-lo. O futuro cineasta pediu para sua mãe um empréstimo para poder realizar uma produção independente. O filme, em preto e branco, com duração de 16 minutos foi rodado em 15 dias. Os principais intérpretes foram Simone Mareuil e Pierre Batcheff.

Os amigos Man Ray (Emanuel Rudzitsky) e Louis Aragon assistiram ao filme e ficaram entusiasmados. Consideraram Buñuel e Dalí autênticos surrealistas, sem o rótulo.

A estréia oficial de O cão andaluz foi no Studio Ursulines, com a presença de Picasso, Le Corbusier e Cocteau. O grupo surrealista do Café Cyrano compareceu em peso.

Buñuel permaneceu atrás da tela, com uma vitrola, na qual alternava tangos argentinos com passagens de Tristão e Isolda.

Após esta estréia considerada triunfal, o filme foi comprado pelo Studio 28. Fez grande sucesso de público, pois ficou oito meses em cartaz. Buñuel recebeu de direitos autorais um total de oito mil francos.

Em contrapartida aos admiradores da obra, cerca de 50 pessoas fizeram denúncias ao comissariado de polícia, protestando com a crueldade e a obscenidade do Cão Andaluz. Na Espanha, Lorca que andava numa crise de relacionamento com seus velhos companheiros da Residência, julgou que o título do filme se referia a ele, já que era da Andaluzia. A infundada desconfiança lhe causou profunda amargura.

Nesta época Buñuel descobriu a outra face dos surrealistas. Devido ao sucesso comercial da película, ele autorizou a editora Gallimard a publicar o roteiro do filme na Revue de Cinéma. Foi intimado a comparecer a uma reunião na casa de Breton. Lá os surrealistas o julgaram, tendo Aragon exercido com autoridade o papel de promotor. Buñuel deveria explicar-se porque um filme provocador lotava as salas de cinema e como ousava ceder seus textos para uma revista burguesa?

Breton chegou a perguntar-lhe: Você está com a polícia ou com a gente?

O cineasta ficou perplexo, pois se por um lado queria exercer seu pleno direito de liberdade, por outro lado não queria perder a afeição e a estima dos amigos. Este conflito interior o atormentou durante muito tempo. Passados muitos anos deste episódio, sempre que lhe perguntavam o que era surrealismo, ele respondia: um movimento poético, revolucionário e moral.

Charles de Noailles, patrono das Belas Artes, financiou o segundo filme de Buñuel, um longa metragem chamado A Idade do Ouro. Um dos protagonistas foi o pintor Max Ernst. A princípio o roteiro seria feito com a participação de Dalí. Buñuel chegou a procurá-lo em Figueras, mas o pintor havia sido expulso de casa e estava envolvido amorosamente com Gala, mulher de Paul Éluard. Seu nome consta como roteirista, mas sua participação na película foi mínima.

O lançamento foi no Studio 28 e exibido durante seis dias com sala sempre lotada. A imprensa de direita começou a atacar o filme e organizações integralistas depredaram o cinema e rasgaram os quadros da exposição surrealista organizada no saguão. O nobre Charles de Noailles, patrocinador do filme, foi expulso do Jockey Club. Em nome da manutenção da ordem, o chefe de polícia pura e simplesmente proibiu a exibição de A Idade do Ouro. Proibição que ficou válida por 50 anos.

A partir destas duas películas, Buñuel dedicou-se de corpo e alma ao cinema. Trabalhou nos Estados Unidos, México, Espanha e França.

De sua vasta filmografia, destacamos os premiadíssimos Viridiana, O anjo exterminador, A Bela da tarde, Tristana, O discreto charme da Burguesia e Esse obscuro objeto do desejo.

 Clique aqui e assista ao trailer de A Bela da tarde:

Autor: Arthur Torelly Franco

E-mail: torelly@polors.com.br

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