O Japão além das meras aparências

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No conto “Em Português Brasileiro”, Kenzaburo Oe relata a história de um povoado no Japão cujos habitantes desapareceram misteriosamente. Um guarda florestal tenta descobrir o paradeiro, enquanto mostra fascínio pelo português falado no Brasil, língua que está estudando. “Nem tudo no mundo é explicável”, diz o personagem. “A cidade do Rio de Janeiro parece que também não é cartesiana.” Para nós, brasileiros, a frase não deixa de fornecer certa iluminação.

Olhar as coisas sob uma perspectiva diferente é essencial para um melhor entendimento do mundo. No que se refere a ponto de vista, o japonês Kenzaburo Oe, de 76 anos, tem uma condição privilegiada. O fato de ter vivido a infância e adolescência em uma vila no meio da floresta, isolada do restante do Japão (país que por sua vez é isolado fisicamente do continente asiático), deixou marcas indeléveis no escritor. Mitos e lendas locais, transmitidas oralmente através dos séculos, são constantes em sua obra. Há sempre um elemento mágico, fantástico, que retoma as origens do próprio país.

Elementos tipicamente japoneses povoam o seu trabalho, como mostra a compilação “14 Contos de Kenzaburo Oe”, que reúne textos escritos entre 1957 e 1990. Oe aborda questões que muitos japoneses gostariam de esconder embaixo do tapete. O ressurgimento do militarismo, honra, loucura, o não falar diretamente (comumente visto como um traço de hipocrisia por observadores ocidentais), consumismo, desvios sexuais – “O Homem Sexual”, de 1963, sobre tarados de metrô, lembra os retratos da compulsão celebrizados por Junichiro Tanizaki (1886-1965) – são temas que retratam um Japão contemporâneo esgotado.

Para ele, a literatura não basta. Há anos, o escritor também é um ativo pacifista, uma figura pública polêmica. No conto “Seventeen” (1961), inspirado no assassinato de um líder do Partido Socialista por um estudante, Oe retrata a conversão de um adolescente onanista a fanático de extrema-direita. Conseguiu desagradar aos dois lados da questão, mas chegou a receber elogios do escritor Yukio Mishima (1925-1970), um militarista fanático.

A carreira de Oe, no entanto, pode ser dividida em duas fases, separadas pelo nascimento do primeiro filho, Hikari, em 1963. Nos primeiros anos, são mais fortes as influências da literatura francesa, em especial o existencialismo de Sartre.
Aos 28 anos, Oe já era um escritor famoso no Japão. Alguns anos antes, vencera o Prêmio Akutagawa, um dos mais prestigiosos do país. Mas, quando soube que Hikari nascera com grave problema cerebral, que o tornou deficiente mental para o resto da vida, Oe entrou em crise pessoal que acabaria criando sua voz literária e o levaria ao Prêmio Nobel de Literatura em 1994. Esse momento tenso ganha uma versão romanceada em “Aghwii, o Monstro Celeste” (1964). Oe viu-se tentado a dar cabo da vida do filho, por sugestão dos médicos. Na sociedade japonesa, ter um deficiente mental na família é um tabu. O escritor, ao contrário, resolveu assumir o filho e não escondê-lo. Hikari tornou-se personagem constante nos textos de Oe (“Viver em Paz” e “A Dor de uma História”, ambos de 1990, retratam o cotidiano da família).

Na obra de Kenzaburo Oe, há sempre um estranhamento perante o ser humano, como se um observador alienígena estivesse nos vendo e tecendo comentários espantados. Ele fala sobre o Japão, mas, antes de mais nada, sobre a condição humana.

Fonte: Bruno Yutaka Saito / Valor Econômico.

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