O cérebro tem muitas janelas

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Apolo mandou dizer: “O mar não tá pra peixe”. Cabe à colunista, ou ao leitor, encontrar o sentido da frase.

Talvez Apolo ande preocupado com a crise. No último encontro do Conselho da União Europeia, “frau” Merkel e “monsieur” Sarkozy se congratularam pelo “compacto fiscal” que vetou característica básica de uma união fiscal: a responsabilidade da federação pelas dívidas soberanas dos membros.

Na década de 1990, o governo central do Brasil assumiu a dívida dos nossos Estados em troca da privatização dos bancos estaduais, única saída para a desordem fiscal que se instalara no país. A aliança Merkel-Sarkozy, ao contrário, vetou os “eurobonds” e restringiu o Mecanismo de Estabilidade Europeia. Não é à toa que os investidores estão cada vez mais inseguros, com medo de desvalorização ou “default” pelos países mediterrâneos.

As incertezas políticas são monumentais. Se a direita francesa declarar que o “compacto fiscal” representa perda de soberania, o acordo perde credibilidade antes das eleições presidenciais na França em maio. Além disso, o acordo precisa de ratificação pelo parlamento de cada um dos 17 países da união monetária, com inserção de freios ao endividamento público na constituição. Se um país não conseguir dar esses passos, ele será expulso do euro? Falta credibilidade às sanções impostas no caso de infração a metas fiscais. No curto prazo, o “compacto fiscal” agravaria a situação econômica dos países mais frágeis ao reforçar a recessão em andamento. Segue-se a revolta da classe média contra as elites financeiras… E mais incerteza política.

A desvalorização do euro parece inevitável, pois o X do problema é que a Europa não pode competir com o resto do mundo. O argumento de que os países da periferia acumularam déficits comerciais, porque não podiam competir com a Alemanha, é apenas um relato muito parcial do que andou acontecendo na última década. A piora da balança comercial dos países da Europa em relação à Alemanha representa apenas uma parte pequena do aumento do desequilíbrio externo desses países. A deterioração ocorreu sobretudo em relação à China e aos países exportadores de petróleo.

De positivo, o Banco Central Europeu tornou-se mais ativo, monetizando dívidas numa escala ainda maior do que Ben Bernanke fez nos Estados Unidos, embora Mario Draghi procure agradar à Alemanha dizendo que a ajuda aos bancos soterrados sob as dívidas soberanas não é infinita. O cenário, que inclui inflação, mas permite recuperação da crise, exige a desvalorização do euro. A monetização das dívidas, promovida pelo Banco Central Europeu, vai nessa direção, mesmo que o banqueiro-chefe pronuncie discursos conservadores. De qualquer jeito, muita gente vai pagar o pato nesse mar que não está pra peixe.

Por enquanto, a ilusão dos políticos de que podem se esconder atrás de artimanhas legais reina suprema. E, por falar nisso, ilusões cognitivas são o tema de “Thinking, Fast and Slow”, de Daniel Kahneman (Farrar, Strauss and Giroux, 2011).

Kahneman é um psicólogo que ganhou o Nobel de Economia e estudou os processos mentais através de experimentos precisos de como lidamos com dinheiro. Grande parte do livro se concentra nas histórias que ilustram o conceito de ilusão cognitiva, isto é, a crença numa falsidade que intuitivamente aceitamos como verdadeira. Elas incluem, entre outras, a “ilusão da competência da opinião própria” (“illusion of validity”), o “viés derivado do uso da memória mais rapidamente accessível” (“availability bias”) e o “endowment effect”, isto é, o fato de que a pessoa dá mais valor ao que lhe pertence do que ao que pertence aos outros.

Essas ilusões ajudam a entender vieses sistemáticos do comportamento humano em relação ao comportamento racional e consistente. A finança comportamental, da qual Kahneman é um dos fundadores, mostra que: investidores tendem a extrapolar o crescimento dos ganhos no passado para o futuro distante; os mais exuberantes acarretam sobrevalorização dos ativos; o mercado não reage imediatamente a anúncios de lucros; as pessoas têm maior aversão à perda do que preferência por ganho e, além de atribuir maior valor ao agora, não parecem diferenciar a “semana que vem” do “ano que vem”.

A “ilusão da competência da opinião própria” domina o cérebro humano, embora as estatísticas contenham mais informação a respeito dos fatos do que a intuição do especialista. Considere o caso do teste inventado pela anestesista Virginia Apgar em 1953 para guiar o tratamento dos recém-nascidos. Uma fórmula baseada em cinco sinais vitais que se pode medir com rapidez (a batida cardíaca, a respiração, os reflexos, o vigor muscular e a cor) determina melhor do que a intuição do médico se o bebê precisa de ajuda imediata. O teste é hoje usado no mundo inteiro e salva milhares de bebês todos os anos. Mas convencer profissionais de que o teste era melhor do que sua intuição levou tempo.

Por que sofremos da “ilusão da competência da opinião própria”? Ou baseamos nosso julgamento numa memória facilmente accessível, sem consultar um conjunto maior de memórias? A resposta – argumenta Kahneman – está no funcionamento de nossos cérebros, que têm dois sistemas independentes para organizar o conhecimento: o “Sistema Um” e o “Sistema Dois”.

O “Sistema Um” é rápido e, em fração de segundo, nos permite reconhecer as pessoas e entender suas falas. Possivelmente se desenvolveu a partir dos pequeninos cérebros que permitiram nossos ancestrais mamíferos sobreviverem aos répteis predadores. A sobrevivência na selva exigia um cérebro que tomasse decisões com extrema rapidez, valendo-se de informações precárias. Intuição é o nome mais comum do guia dessas decisões.

O “Sistema Um” tem acesso a enorme estoque de memórias e as utiliza para formar julgamentos. As memórias mais acessíveis estão associadas a emoções fortes, como o medo, a dor e o ódio. Os julgamentos do “Sistema Um” muitas vezes estão errados, mas no mundo da selva vale mais errar e agir com rapidez do que acertar e reagir devagar demais.

O “Sistema Dois”, mais lento, forma julgamentos com base no pensamento consciente e no exame crítico dos fatos, permitindo corrigir erros e rever opiniões. Data, provavelmente, de épocas menos remotas do que o “Sistema Um” e evoluiu depois que nossos ancestrais passaram a trepar nas árvores e a ter tempo para pensar. O gorila no alto do galho está mais preocupado com a demarcação de seu território do que com os predadores. O “Sistema Dois” ajuda a família a fazer planos, coordenar ações, criar cultura.

A razão pela qual o cérebro humano não abre mão do “Sistema Um” a favor do “Sistema Dois” se deve à preguiça do “Sistema Dois”. Ativá-lo requer esforço mental e o esforço mental exige tempo e calorias. Medidas da química sanguínea em laboratório acusam maior consumo de glicose quando o “Sistema Dois” está trabalhando e, porque pensar dar trabalho, nossa rotina se organiza para economizar pensamento. Enquanto estamos engajados em tarefas cotidianas de comer, falar e escrever, o “Sistema Um” está no comando e não estamos pensando. Só acionamos o “Sistema Dois” quando exaurimos todas as alternativas. O “Sistema Um” é mais vulnerável a ilusões, mas o “Sistema Dois” também não é imune a elas.

Interessante que o nome de Sigmund Freud não aparece no livro de Kahneman. Mas Freud escreveu pelo menos dois livros com conceitos similares aos de Kahneman. A “Psicopatologia da Vida Cotidiana” descreve muitos erros de julgamento e comportamento, que ocorrem por causa de vieses emocionais operando abaixo do nível consciente. O livro “O Ego e o Id” descreve dois níveis da mente: um consciente e racional e outro, inconsciente e irracional.

Claro que existem enormes diferenças entre os dois autores. Freud está mais perto da literatura, usando histórias e mitos que falam ao nosso coração, enquanto Kahneman está mais perto da ciência. Os estudos de Kahneman se limitam aos processos mentais que ele pode observar e medir no laboratório. Isso significa que manifestações apaixonadas e violentas – ligadas à vida, à morte e ao amor e que escapam ao controle experimental – ficam fora do campo de pesquisa de Kahneman.

Ainda assim, Kahneman fez um belo trabalho ao esclarecer a monotonia de nossos processos cognitivos e o lado prático de nossas decisões. Bom para nós, leitores de 2011, que podemos nos valer tanto dos insights de Freud quanto da ciência de Kahneman.

Fonte: Eliana Cardoso / Valor Econômico.

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