Nova York, uma rival para o Vale do Silício

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Uma nova geração de empresas de tecnologia e internet surge na cidade e a coloca no mapa da inovação nos Estados Unidos.

 

Kevin Ryan, de 47 anos, é um veterano da internet. Como presidente da empresa de publicidade online DoubleClick, Ryan foi um dos poucos executivos a sobreviver à bolha da web, que levou centenas de startups de tecnologia americanas à bancarrota no início dos anos 2000. A DoubleClick, fundada em 1996, foi vendida para fundos de private equity por 1,1 bilhão de dólares em 2005, quando ele deixou a companhia, e hoje pertence ao Google. Mesmo para a bem-sucedida trajetória de Ryan, poucos anos foram tão prósperos quanto este que está chegando ao fim. Em maio do ano passado, sua empresa de venda de artigos de luxo pela internet, a Gilt Groupe, da qual é fundador e presidente, levantou 140 milhões de dólares com investidores privados, entre bancos, empresas de mídia e fundos de investimento. A rodada de capitalização, uma das maiores do ano entre startups americanas, levou a Gilt Groupe, criada no final de 2007, ao valor de 1 bilhão de dólares. Quatro meses depois, foi a vez de Ryan passar novamente o chapéu pelo mercado, cuja resposta foi a injeção de quase 30 milhões de dólares em outras duas empresas nas quais é sócio: o portal de notícias Business Insider, criado em 2009, e a empresa de desenvolvimento de softwares 10Gen, fundada em 2007. “Em todas as ocasiões, foi extremamente fácil encontrar investidores” diz Ryan. “É um excelente momento para criar uma empresa de internet. Especialmente se você estiver em Nova York”.

O otimismo em relação ao ambiente de negócios na cidade não é exclusividade de Ryan. Suas empresas fazem parte de uma nova geração de startups de tecnologia e internet criadas em Nova York nos últimos cinco anos, que cresceram de forma estrondosa e vêm forjando a base de um novo polo de tecnologia na cidade. São empresas como o Foursquare, a rede social baseada em geolocalização fundada há pouco mais de dois anos e que hoje possui mais de 10 milhões de usuários em 200 países. Ou como o Kickstarter, site que permite o financiamento de projetos com doações coletivas, e que já arrecadou mais de 100 milhões de dólares desde sua criação, em abril de 2009. Hoje existem mais de 500 startups espalhadas por Nova York — mais de 70% delas dedicadas a serviços de internet. Em 2008, não chegavam a 100. Juntas, essas empresas levantaram 1,3 bilhão de dólares até outubro do ano passado, o suficiente para confirmar Nova York como o segundo maior destino de investimentos em tecnologia dos Estados Unidos, atrás apenas do Vale do Silício, na Califórnia, segundo estudo da consultoria PricewaterhouseCoopers. “Há um grupo enorme de empreendedores em Nova York construindo negócios reais e com grande potencial de crescimento“, diz o americano David Lerner, consultor e investidor em startups de internet na cidade. “Nova York entrou para o mapa da inovação e agora todos estão prestando atenção ao que acontece aqui.”

O surgimento dessa nova leva de negócios online na cidade pode ser explicado, em grande parte, pelo amadurecimento dos empreendedores locais, aliado à formação de um mercado robusto de fundos de capital de risco, especializados em fomentar o crescimento de novas empresas, que antes se concentravam quase inteiramente no Vale do Silício. Nova York está agora em sua segunda geração de empreendedores: são jovens que tiveram acesso às empresas de tecnologia sobreviventes da bolha e encontram na cidade consultores experientes, além de financiamento para seus projetos. O nova-iorquino David Karp, de apenas 25 anos, fundador da rede de blogs Tumblr, é um dos mais incensados empreendedores dessa nova geração. Quando criou o Tumblr, em 2007, ele tinha apenas 20 anos, mas já havia acumulado experiência ao estagiar em duas startups da cidade. Pouco mais de quatro anos após seu lançamento, o Tumblr é um sucesso inconteste: alcançou a marca de 36 milhões de blogs e, segundo a última pesquisa da consultoria Nielsen, os americanos já gastam mais tempo no site de Karp do que em redes sociais badaladas, como Twitter e LinkedIn. “Não precisamos sair de Nova York para buscar talentos nem para encontrar financiamento. E isso é genial”, diz Mark Coatney, diretor de mídia do Tumblr, que atraiu 130 milhões de dólares em investimentos e hoje está avaliado em 800 milhões de dólares.

O empreendedorismo local também ganhou um empurrãozinho involutário dos banqueiros de Wall Street: desde a crise financeira de 2008, 40 000 empregos desapareceram do setor financeiro de Nova York. Por outro lado, o número de vagas de trabalho em empresas de tecnologia e internet cresceu três vezes mais do que a média da cidade. “Se você é o garoto mais inteligente da escola e mora na Califórnia, possivelmente irá trabalhar na Intel ou no Facebook. Aqui, os mais talentosos iam para o Goldman Sachs. Isso começou a mudar”, diz Micah Kotch, diretor do programa de incubadoras da Universidade de Nova York (NYU). O prefeito Michael Bloomberg, que além de político é dono do conglomerado de mídia que leva seu sobrenome, tem se empenhado em acelerar o florescimento desse novo polo de tecnologia. Em julho de 2009, anunciou um plano para estimular a economia de Nova York que, entre outras medidas, prevê a criação de uma faculdade de engenharia e ciências aplicadas na cidade e de um fundo de 22 millhões de dólares para investir em empresas de tecnologia, além do financiamento de incubadoras e espaços de trabalho para startups. Dez projetos já receberam dinheiro da prefeitura — entre eles as incubadoras operadas pela NYU. Além delas, pelo menos outras dez foram criadas de forma independente na cidade nos últimos anos. A Techstar, que já operava incubadoras nos estados de Washington, Colorado e Califórnia, abriu as portas em Nova York em 2010. Em seu primeiro programa, 600 empresas concorreram pelas dez vagas abertas.

O movimento já é suficiente para chamar a atenção das grandes empresas do setor de tecnologia. Em 2010, o Google investiu 2 bilhões de dólares na compra de um edifício para abrigar sua filial em Nova York. Em agosto do ano passado, a Apple inaugurou um escritório na cidade, seguida pelas redes sociais Twitter e Yelp. Recentemente foi a vez de o Facebook anunciar a criação de um centro de engenharia em Nova York, o primeiro fora do Vale do Silício. “Quem pensa em inovação e em internet hoje nos Estados Unidos precisa olhar para Nova York”, diz Jake Schwartz, fundador da General Assembly, espaço que congrega cursos de tecnologia, design e empreendedorismo, além de hospedar empresas e profissionais de internet, aberto no início do ano passado e que já atraiu investidores como Jeff Bezos, fundador da Amazon, e o Skype. Um exemplo da projeção que o setor de tecnologia de Nova York vem tomando foi a decisão da montadora de carros BMW de sediar na cidade seu mais recente projeto de inovação, o iVentures, um fundo de 100 milhões de dólares lançado no início de 2011 para investir em startups de tecnologia. O Vale do Silício ainda ostenta a confortável posição de maior polo de tecnologia e internet dos Estados Unidos. Mas é bom continuar olhando para o que os ex-candidatos a empregos em Wall Street andam fazendo na Costa Leste.

Por Renata Agostini, de Nova York para a revista EXAME.

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