Ano-novo, velhos hábitos

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Chega o ano-novo, mas os nossos grandes problemas estão nos velhos hábitos situados naquela zona malandra centrada entre o Estado (essa milionária máquina gerencial pública com suas regras opostas ao bom-senso) e a sociedade. Nós, os cidadãos comuns que não recebemos milionários auxílios-residência, não temos licença prêmio ou atrasados a receber nem fomos eleitos para algum cargo público com o propósito de usá-lo para virarmos nobres e, melhor que isso, ficarmos fora do alcance da lei. Nós, os comuns, não temos emprego – temos impostos e trabalho!

 Entramos o ano-novo com o Poder Judiciário em crise. Quem julga os juízes numa terra onde tudo tem lei, mas os “bandidos” (eis uma categoria cada vez mais ampla) continuam leves, livres e soltos? A Lei da Ficha Limpa foi adiada e bloqueada, o “mensalão” pode ser devidamente engavetado. Há, pasmem, uma “lei da palmada!” E o Poder Executivo faz sinal de faxina e chama falcatruas de malfeitos, enquanto a foto de Daniel, filhinho do senador ficha suja Jader Barbalho – empossado com o ritual que aristocratiza os eleitos -, fazendo o antigo sinal que nos chama de otários, é o melhor símbolo desse 2011 que findou.

Entrementes, o capitalismo vai mal. Mas a nossa economia cresce e ultrapassamos o Reino Unido. Aqui há clareza. Sabemos quem vai mal ou bem. O diabólico mercado pune os bandidos e dá um pontapé chapliniano na bunda dos hiperespeculadores. Quando não promove cadeia e uma nova consciência social nos Estados Unidos. Hoje, sabemos que o maior inimigo do capitalismo não é a classe operária, mas os gênios de Walt Street e do Silicon Valley que inventam bolhas de dinheiro fácil e superprogramas de comunicação, enquanto seus usuários não têm nada pra dizer.

Mas, como compensação positiva, entramos o ano com uma intolerância maior para a bem estabelecida desigualdade dos poderosos (localizados no Estado) e a igualdade devida a cada um de nós como cidadãos efetivamente republicanos. Desse aspecto, ninguém mais do que a imprensa tem atuado com eficiência e equilíbrio. Pois é ela que tem mostrado como é importante, numa sociedade igualitária, separar o que deve ter limites do mandonismo ilimitado.

Aqui, destaca-se a discussão implícita, mas em curso, do que é, de fato, servir ao governo. Não foram poucas as vezes que perguntamos aos responsáveis pela máquina pública se, afinal de contas, os mais “altos funcionários públicos” trabalham para si mesmos – como manda a ética do “corporativismo” brasileiro que, no fundo, é uma ação entre amigos com o consentimento legal do Estado – ou se eles trabalham para o Brasil. Neste caso, é preciso tomar consciência que quando um sujeito vira ministro, ele não tem mais vida privada quando se trata – obviamente – de consultorias e outros trabalhos que configuram conflito de interesse. Nesse ponto eu me pergunto se não precisamos de uma psicanálise coletiva.

Na entrada de um ano-novo, vale uma pausa para pensar se vamos continuar assistindo à riqueza de todos ser desperdiçada ou seguir para o bolso de nossa aristocracia governamental e dos seus apaziguados. Esses “altos funcionários” que tudo sabem, tudo decidem e – aí está a chave no negócio – tomam um copo de vinho com quem comanda essa incrível máquina de produzir dinheiro sem aparentemente dar prejuízos a ninguém porque é um aparelho isento de responsabilidade. Máquina montada por uma elite escravista que realizou uma brutal internalização do seu espírito hierárquico e patrimonialista em todo o sistema. Esse espírito que até hoje nos isenta de culpa pelo que somos e pelo enorme descaso relativamente aos nossos próximos desiguais.

A igualdade cívica é um ideal. E, no entanto, a desigualdade é, no Brasil, não apenas um fato histórico capital, mas é também – apesar de alguns esforços – um valor. Temos altos funcionários e representantes do povo que são intocáveis. Suspenda-se por um momento a norma da hierarquia, instituindo uma corregedoria atuante em nível nacional e temos uma crise no Judiciário que decorre da igualdade. Onde há igualdade há conflito e, como consequência, ausência de bom-senso na sua resolução. O “engavetamento” e a “prescrição”, esses gêmeos do nosso DNA legalístico forjado em Coimbra, conforme aprendi com José Murilo de Carvalho, são o modo (ou o “jeitinho”) de mostrar quem fala mais alto.

Em 2011 voltamos a ser atrapalhados não apenas pela economia, em que perdas e danos sempre existem e são – eis o ponto – relativamente impessoais, mas pelo Estado. Um Estado que continua personalizado e aristocratizante, insensível à racionalidade num mundo claramente preocupado com a suficiência e com a sustentabilidade.

Fonte: Roberto DaMatta – O Estado de S.Paulo

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