A geopolítica das placas tectônicas

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Em “A Geopolítica das Emoções” (Campus/Elsevier, 2009), o cientista político francês Dominique Moïsi descrevia as grandes regiões do mundo a partir de sentimentos que as caracterizavam. Substituindo a tese da “guerra de civilizações” de Samuel Huntington pela “guerra de emoções”, o autor buscou projetar os conflitos do presente com os imperativos afetivos que regem os povos. Segundo Moïsi, a Europa e os Estados Unidos (sob a rubrica única de “Ocidente”) eram marcados pelo medo. Medo do outro, da decadência, do desemprego. Os países árabes, por sua vez, eram vítimas de uma “cultura de humilhação” resultante de uma história de ditaduras, invasões e pobreza. Por fim, o epicentro da “cultura da esperança” que se espalha pelo mundo emergente era a Ásia, cujos povos anteveem desenvolvimento e poder geopolítico.Quando Moïsi visitou o Brasil, em outubro, uma dessas definições se deslocava. Com a Primavera Árabe, a história do mundo muçulmano começou a mudar. Já o medo ocidental só teve motivos para se aprofundar: a crise na Europa se multiplicou e ameaça carregar consigo os EUA, onde qualquer iniciativa do governo de Barack Obama rebate na muralha dos vetos do Partido Republicano. Já a Ásia, pelo menos por enquanto, não parece ter motivo para perder a esperança.

Nesta entrevista para o jornal Valor Econômico, Moïsi retorna a 2011 para delinear o que se pode esperar de 2012. Para ele, deve-se ficar atento à esperançosa China, cujo crescimento deve desacelerar. Já Brasil, Índia e Turquia devem encontrar seus papéis na nova configuração geopolítica. A Europa,abalada pela estagnação e o risco de ruptura, deve se precaver contra a descrença na democracia.

O ano de 2011 foi fora de série. Começou sob o signo de uma crise estagnada, a decepção com Obama, a ascensão do Tea Party.Ao final, é o ano da Primavera Árabe, da Europa em frangalhos, dos movimentos “Occupy”. É também o ano em que se sugeriu que ex-colônias salvariam ex-metrópoles da bancarrota.

Dominique Moïsi: Há coisas muito interessantes em 2011. De um lado, presenciamos o início de um processo revolucionário que pode mudar a posição de uma parte do mundo, os países árabes. De outro, em 2011 manteve-se inabalável um processo de crise que vai pouco a pouco afundando os países ocidentais. Os próprios protestos árabes têm uma parte de sua origem na crise econômica: eram países com um desemprego de jovens absurdo. Articulando a crise e o começo dos levantes, começou a aparecer uma série de reações, como os chamados indignados na Europa, Espanha em particular, e o Occupy Wall Street nos EUA, que demonstram que a maneira comoa política nessas partes do mundo se organizou até hoje enfrenta questionamentos sérios. Eu me refiro ao que está acontecendo como um movimento de placas tectônicas, o que inclui terremotos. O Ocidente perde peso relativo, a Ásia renasce, os emergentes ganham novo peso. A geopolítica está em franca transformação.

É possível imaginar que 2011 seja lembrado como o foram 1968 e 1905, por exemplo?

Moïsi: No mundo árabe, certamente. No mundo como um todo, não posso afirmar, porque não tivemos necessariamente rupturas radicais, mas a continuação de um processo que já vem pelo menos desde 2008, quando se tornou visível com a crise financeira. O ano de 2011 não foi eleitoral nem nos EUA, nem na França, nem na Alemanha… 2012 pode reservar alguns eventos determinantes nesse campo.

Na reorganização da geopolítica, caberá um papel ao Brasil. Depois do que vimos na participação brasileira no caso iraniano e no conflito líbio, o que o país transmite ao mundo?

Moïsi: Uma certa ingenuidade. O Brasil está dando seus primeiros passos. Achei muito positivo que Dilma Rousseff, logo ao assumir, tenha dito que não precisa apoiar o Irãem tudo. Ocaso da Líbia é diferente, o Brasil esteve junto com a Alemanha, por exemplo. Não se compara com a aproximação com aiatolás.

Mas na verdade a aproximação é com a Turquia, outro poder em ascensão.

Moïsi: Sim, a Turquia é como o Brasil nesse sentido, embora não possa se comparar em tamanho ou peso. São países parecidos em termos de disposição e vontade. Estive neste ano no Brasil. É incrível o contraste com a morosidade europeia. Na volta, escrevi um artigo para o jornal econômico francês “Les Échos”, intitulado “O novo sonho americano é brasileiro”. Visitar o Brasil foi como uma injeção de vitamina C.

O senhor se diz preocupado com o ressurgimento dos nacionalismos. Eric Hobsbawm compara a Europa de hoje à Alemanha de Weimar (1919-1933). O senhor concorda?

Moïsi: Eu não iria tão longe. Há, sim, toques dos anos 30 na Europa atual. O nacionalismo é o mais óbvio, mas o mais preocupante, fonte dos outros males, é o desemprego. Na Espanha, por exemplo, chega a quase 50% dos jovens, próximo do que se via no outro lado do Mediterrâneo e provocou as revoluções. Isso causa desesperança, leva ao nacionalismo, à xenofobia. Mas a situação de hoje é muito melhor do que a da República de Weimar. Na época, o continente saía da Primeira Guerra, um período de absoluta destruição. Hoje, saímos de um período excepcionalmente longo de paz. Além disso, instrumentos como o euro evitam que se caia em instabilidades financeiras insuportáveis, como a inflação alemã de 1923. E há ainda o tão atacado Estado de Bem-Estar Social, uma rede de serviços que dá algum amparo aos desempregados, que conseguem se manter de alguma forma.

Um traço que merece atenção na política europeia é que os novos líderes da Grécia e da Itália não foram eleitos. Na Espanha, os protestos ressaltavam justamente o sentimento de não ser representado. É sinal de democracia em perigo?

Moïsi: Vejo, sim, uma crise de fé na democracia na Europa, mas não necessariamente seu esgotamento. Lucas Papademos e Mario Monti foram alçados ao poder não tanto pelo que são, mas pelo que não são: pela diferença em relação aos outros. São reconhecidos pela competência em assuntos financeiros, claro, mas Monti, em particular, é interessante: ele representa o anti-Berlusconi. Não é um corrupto, um bufão, um descontrolado sexual. A descrença na democracia na Europa expressa, em certa medida, o mesmo estado geral de medo que tomou conta do continente e do Ocidente como um todo.

Barack Obama era o candidato da esperança com seu “yes, we can”. Após três anos, os americanos estão bastante decepcionados com o presidente. O problema é a fraqueza dele ou de um sistema político esgotado nos EUA?

Moïsi: Os EUA tiveram um repique de esperança com a eleição de Obama em 2008, mas voltaram à lógica do medo, que se cristaliza na fórmula brilhante de Francis Fukuyama: a “vetocracia” imposta pela radicalização dos republicanos. Na Itália, tivemos a “sexocracia” e, nos EUA, a “vetocracia”. São duas formas de manifestar no campo político o marasmo de um Ocidente que não consegue lidar com as grandes mudanças do mundo, onde sua posição não é mais a mesma, aquela posição confortável de dominação que durou pelo menos 250 anos.

A ascensão da China é temida, às vezes, por ser uma ditadura cujos líderes querem vencer a qualquer custo. Esse medo é justificado?

Moïsi: Há alguma justificativa para esse medo, sim. Dois nacionalismos disputam espaço na China. O primeiro é o orgulho das possibilidades que o país vai desenvolvendo, pelo crescimento econômico, pela ascensão de classes que até ontem eram depauperadas etc. Aliás, vai ser interessante observar o que acontecerá com esse espírito esperançoso nos próximos anos, em que o crescimento do país vai ser mais lento, porque o mundo está comprando menos.

E o segundo nacionalismo?

Moïsi: É a nação forte, poderosa, que se manifesta na forma brutal como a China lida com os vizinhos, em particular o Tibete e, claro, Taiwan. Os chineses estudam com muita atenção a diplomacia alemã entre 1871 e 1914. Lá, também, havia essa dicotomia. Uma diplomacia inspirada em Bismarck, de não aparecer demais, cuidar das próprias questões, evitar intervir. Por outro lado, havia também uma diplomacia influenciada por Guilherme II, mais assertiva, expansiva, encantada com o poder nacional.

A China corrige ou repete os erros alemães que desembocaram nas guerras mundiais?

Moïsi: De maneira geral, estão corrigindo, já que podem aprender com a história. Mas isso pode mudar a qualquer momento. São situações parecidas. Enquanto a economia for bem, é provável que consigam manter uma diplomacia saudável, como a Alemanha no século XIX. Mas, quando começar a apertar, tudo pode mudar, como na Alemanha, porque os imperativos da manutenção do desenvolvimento podem começar a falar mais alto e a produzir exigências sobre os formuladores de políticas da China.

Mas em escala muito mais ampla.

Moïsi: Claro. A economia é global, são 1,3 bilhão de pessoas e estamos na era atômica.

O senhor fala da reemergência da China, um grande império por séculos. Não seria o caso da Índia, guardadas as devidas proporções?

Moïsi: Não, porque a última referência de império na Índia foi o mongol, muçulmano, no século XVI. Eles não lidam confortavelmente com isso. Antes, só o império gupta do século VI. O indiano não lida tão bem com o poder quanto o chinês. As referências históricas e políticas chinesas são centradas em grandes poderes, imperadores, guerreiros. Na Índia, as referências são de gente pacífica, que lutou contra os poderes grandiosos. Gente que se retirou da política para construir algo em outro domínio, em particular o espiritual: de Buda a Gandhi. A Índia está assumindo uma posição nova no mundo, mas não é uma posição em que se sinta confortável para ter a mesma posição assertiva da China. A Índia hoje é mais comparável aos EUA ao fim da Primeira Guerra. Um país que cresceu muito em peso geopolítico, mas não quer intervir.

Em seu livro, a associação emocional para os árabes era a “humilhação”. Depois da Primavera Árabe, qual é o sentimento deles? A mesma esperança da Ásia ou outro ainda?

Moïsi: Provavelmente algo entre os dois. O excesso de humilhação no mundo árabe derrubou o muro do medo. Os processos históricos acontecem assim. A vida transborda as margens da tirania. A glaciação não pode durar para sempre. Os egípcios continuam protestando depois de derrubar Mubarak, não vão se contentar com qualquer coisa. Eles conquistaram a vontade e o poder de reconstruir o país.

O senhor compara as revoluções árabes à francesa de 1789, lembrando que, um ano depois do 14 de Julho, nada importante aconteceu. Nessa comparação, após três anos houve o Terror e, na virada do século, veio Napoleão. A república só se instaurou de vez em 1871, quase um século depois. Esse é o destino dos países árabes?

Moïsi: Nessa comparação que faço, estamos agora em algo correspondente a maio ou junho de 1790. Foi um processo com altos e baixos, idas e vindas. Uma mudança enorme, como essa, não acontece da noite para o dia. Partidos islâmicos ganharam na Tunísia e no Egito, mas isso não é motivo para alarme, porque muita água ainda vai correr debaixo dessa ponte. Não se pode dizer que a Primavera Árabe foi suplantada pelo “inverno islamita”. Aliás, isso pressupõe que o islamismo é estanque, o que é falso: existem muitos tipos de islamismo e nem todos são obscurantistas como tendemos a crer.

A Revolução Francesa passou pelo Terror, as guerras da Vendeia, a Convenção, o Diretório, até chegar ao 18 de Brumário…

Moïsi: Não sei até que ponto a comparação vai ser válida. Mas é importante frisar que as ideias revolucionárias de 1789, depois de tudo isso, continuam conosco até hoje. É isso que caracteriza uma revolução. Acredito que algo parecido vai acontecer nos países árabes, inclusive em relação ao islamismo.

A pergunta tem um subtexto. Para o filósofo americano Steven Pinker, o mundo nunca foi tão pouco violento. Nas últimas décadas,acreditou-se que a geopolítica dispensaria a violência. Ainda se pode acreditar nisso?

Moïsi: O mundo é menos violento, embora as ferramentas de comunicação nos deem a impressão contrária. Se elas existissem em 1914, a Primeira Guerra seria mais curta. Podemos imaginar que um período revolucionário esteja começando e traga violência. Muitos veem na crise atual, como em tantas outras, o fim do capitalismo ou da globalização, o esgotamento de um modelo centenário. Isso é precoce, mas, acima de tudo, depois de 6 de agosto de 1945 [quando os EUA lançaram a primeira bomba atômica no Japão], não se pode crer que a guerra é a continuação da política. É interessante observar que um dos países com pior sensação de violência é o Brasil. Em Paris, nunca penso antes de sair para dar uma volta à noite. No Brasil, fiquei impressionado de ver que as pessoas andam em carros blindados, com seguranças, e me advertiam para tomar cuidado ao sair à rua.

Do ponto de vista cultural, como será o mundo pós-ocidental? Critérios estéticos, fundamentos teóricos e valores ético-políticos de hoje são herdeiros de um período bem específico que foi a “modernidade ocidental”.

Moïsi: Tenho grande paixão por essa questão. De tudo o que ela contém, o principal é a universalidade. Será que os chineses vão construir uma universalidade para sua forma de ser e pensar? Hoje, a China está centrada em suas questões e não olha o resto do mundo. Uma superpotência global pode se manter assim? E será que é possível se desenvolver sem democracia? Parece que sim, mas acho que não é possível sem o estado de direito. As teorias que relacionam democracia e capitalismo, vê-se agora, não necessariamente estão certas. Os asiáticos querem consumir como nós, mas será que vão querer ser governados como nós?

Mas, além da ascensão da China, os focos de irradiação cultural e poder político se multiplicam. Antes era só um, o ocidental.

Moïsi: Isso é interessantíssimo e tento desenvolver o assunto no livro que estou escrevendo e provavelmente vai se chamar “O Ocidente na Era Pós-Ocidental”. O objetivo é demonstrar aos ocidentais que eles perderam o monopólio dos modelos que detiveram por 250 anos. Isso tem consequências até raciais, porque, até recentemente, a superioridade do branco parecia mais ou menos evidente e nunca mais vai ser assim. É interessante pensar como mesmo no Brasil a questão é importante. Foi, afinal, o último grande país a abolir a escravidão. E embora tenha desenvolvido toda uma narrativa de miscigenação racial e sobretudo cultural, até hoje, quanto mais escura for a pele de uma pessoa, maior é sua chance de sofrer violência.

A expansão da classe média do mundo emergente suscita outra questão. Diz-se, não sem razão, que é impossível que sete bilhões de pessoas consumam tanto quanto os ocidentais. Mas quem haveria de renunciar ao consumo?

Moïsi: É verdade que seria insustentável. O que vejo de positivo é que, na arte japonesa, e na chinesa também, o homem é representado como parte da natureza, muito integrado. Em que pesem as indústrias altamente poluentes da China e o desastre nuclear no Japão, talvez esses países contribuam com uma mudança de mentalidade. Por sinal, essa questão também é uma oportunidade única para o Brasil: o aumento enorme no consumo de recursos naturais.

Mas pode-se imaginar a emergência de um capitalismo menos consumista?

Moïsi: Por enquanto, é improvável. Os asiáticos, apesar de tudo, querem poder consumir mais. Se 1 bilhão de chineses comerem tanta carne quanto 300 milhões de americanos, a natureza sofrerá. Eles sonham em consumir como os ocidentais e nosso pesadelo é trabalhar como eles. O que me incomoda é que, no último século, houve uma enorme evolução tecnológica, mas não uma evolução moral. Ganhamos 20 anos de expectativa de vida, mas o que vamos fazer com isso? Não vivemos melhor e o mundo parece mais incerto e instável, embora com instrumentos de governança melhores, mais acesso à informação e menos violência.

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