Sobre a China

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Henry Kissinger foi protagonista de uma das mais surpreendentes guinadas da diplomacia internacional da segunda metade do século XX: a reaproximação entre Estados Unidos e China. Embora a história seja conhecida, ela ganha frescor (e polêmica) na versão de Kissinger, que a narra entremeando ousados lances de suspense, reveladoras conversas de bastidores e estudados movimentos de xadrez político.

“Sobre a China” é uma obra ambiciosa. Abarca quase toda a história chinesa, fazendo a ponte entre o remoto passado imperial e a potência econômica da atualidade. Sobre as origens daquela sociedade tão enigmática aos olhos ocidentais, no entanto, o autor não tem nada de novo a dizer, embora os capítulos que tratam do período anterior à revolução comunista de 1949 sejam úteis ao leitor que quiser, por exemplo, um resumo sobre o papel do confucionismo na política chinesa.

O livro ganha vida própria a partir da abordagem do governo de Mao Tse-tung, mas só irá dizer a que veio com a narrativa do encontro secreto em Pequim, em 1971, entre o autor, então secretário de Estado americano, e o premiê chinês Chou En-lai. A reunião, que iria deixar marca indelével nas relações entre as superpotências, ocorreu sob o signo da improbabilidade. Representantes de regimes antagônicos, Estados Unidos e China não mantinham relações diplomáticas havia duas décadas, situação agravada por sérias pendências pontuais, como o fato de os americanos estarem em guerra com o Vietnã, um aliado da China.

Pois foi em meio a esse contexto adverso que Kissinger, incumbido pelo presidente Richard Nixon, pegou um avião e foi se encontrar sigilosamente com lideranças chinesas, não sem antes fazer escalas “planejadas para serem tão tediosamente prosaicas que a mídia parasse de acompanhar nossos movimentos”. A aproximação foi bem-sucedida e, em 21 de fevereiro de 1972, sete meses depois da visita confidencial, Nixon chegou a Pequim para o aperto de mãos que entraria para a história.

O que viabilizou tal iniciativa, e o que a explica? Um aspecto que Kissinger não explora é o fato de o republicano Nixon ter sido um extremado anticomunista, mesmo para os padrões americanos. Talvez só um presidente suficientemente duro com o inimigo pudesse se dar ao luxo de fazer um gesto de aproximação sem correr o risco de transmitir uma sensação de fraqueza. Kissinger, porém, passa ao largo dessa consideração, registrando apenas que o “inveterado anticomunista […] percebera uma oportunidade geopolítica e a agarrara intrepidamente”.

O autor prefere se debruçar sobre as motivações do acordo. Se Kissinger tivesse que resumir as quase 600 páginas de seu livro em uma única palavra, provavelmente ele ficaria com “pragmatismo”. Foi sob a égide de interesses recíprocos, desvinculados de qualquer disputa ideológica, que os defensores do capitalismo e do comunismo posaram sorrindo para a posteridade.

O maior interesse em comum era enquadrar a União Soviética. Em plena Guerra Fria, os soviéticos não apenas representavam uma ameaça em potencial para o Ocidente como demonstravam a intenção de atacar o país vizinho. Sozinha, a China era vulnerável; com o apoio dos Estados Unidos, passou a ser intocável. Quanto aos Estados Unidos, a cobertura oferecida à China brecou uma eventual expansão do comunismo soviético, o que colocaria em risco o frágil equilíbrio de forças inibidor de um confronto direto entre as superpotências. Além disso, como se fosse um bônus – embora o autor não coloque a vantagem extra nesses termos -, o presidente desviaria a atenção do público interno do fiasco da guerra do Vietnã.

Nixon renunciou em 1974, Mao morreu em 1976 e a União Soviética foi extinta em 1991, mas a cooperação que os dois políticos inauguraram sobreviveria, ajudando a moldar o cenário internacional atual. A China já vinha crescendo economicamente com consistência desde o início dos anos 70, mas, como Kissinger aponta corretamente, o divisor de águas ganhou um símbolo com a visita que o líder Deng Xiaoping fez aos Estados Unidos em 1979. Sob o chapéu de caubói num churrasco no Texas, a cabeça de Deng formulava o conceito de socialismo de mercado, que até hoje rege a política chinesa. E não foram só ideias que ele levou dos Estados Unidos, mas valiosos contratos com grandes corporações, que nos anos seguintes se instalaram na China, contribuindo para fortalecer ainda mais a economia do país.

Kissinger pertence àquela rara estirpe de políticos que escrevem bem. Não chega a ser um Winston Churchill – o premiê britânico cujos relatos elevam o memorialismo à condição de literatura -, mas sabe contar uma boa história, mesclando, às vezes numa mesma frase, anedota, fato e análise, tudo vazado num estilo híbrido que fica no meio do caminho entre a reminiscência e a reflexão.

O acordo diplomático que lhe garantiu um lugar na história, no entanto, não está imune a críticas. A maior delas diz respeito ao elevado custo para os Estados Unidos. Além de dar um empurrão no monstro econômico que hoje ameaça lhes fazer sombra, os Estados Unidos abriram mão, sempre em nome do pragmatismo, de atuar de acordo com seus princípios democráticos. Para ficar num único campo, os americanos passaram a contemporizar com violações dos direitos humanos na China. Em 1989, por exemplo, quando centenas de manifestantes foram mortos na praça Tiananmen por forças do governo, os Estados Unidos impuseram sanções a Pequim, mas continuaram tratando os chineses como “amigos”.

Kissinger fica a um passo de justificar a violência, atitude incompatível para alguém que, em 1973, recebeu o Prêmio Nobel da Paz. “A ocupação”, escreve ele, “ainda que completamente pacífica, é também uma tática para demonstrar a impotência do governo, para enfraquecê-lo e desafiá-lo a atos intempestivos, deixando-o em posição de desvantagem.”

Kissinger também não economiza elogios ao falar dos políticos chineses que foram seus interlocutores, inclusive Mao, responsável por execuções em massa. A escorregada tem um agravante, pois Kissinger não é um observador isento. Como presidente de uma consultoria internacional, ele tem grandes interesses econômicos na China.

“Sobre a China” pode ser uma tentativa de justificar as opções e edulcorar o legado do pai das relações sino-americanas, mas, com os devidos descontos, é também leitura da qual se emerge com uma percepção mais realista da política internacional.

O autor, Oscar Pilagallo, é jornalista e autor de “A Aventura do Dinheiro” (Publifolha). Publicado originalmente no jornal Valor Econômico.
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