Obra cara e que não aparece

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O Brasil está pagando cada vez mais caro por seguir a trilha enviesada

de dar um valor excessivo apenas para aquilo que é visível aos olhos.

De que adianta ser a oitava economia do mundo se nos hospitais

brasileiros doentes continuam sendo empilhados em condições subumanas?

Em muitas regiões do país – inclusive no Rio Grande do Sul –, ainda

morrem por doenças causadas por falta de saneamento, antes de

completar um ano de vida, mais de cem crianças de mil nascidas vivas.

A cada ano, bilhões de reais são gastos em um sistema de saúde que

privilegia a doença, a degradante ambulancioterapia, os exames

desnecessários, as consultas-relâmpago e as filas que varam madrugadas

e humilham doentes e seus parentes.

As péssimas condições dos mananciais fazem com que a água que chega às

torneiras seja buscada cada vez mais longe, tenha tratamento cada vez

mais caro e, especialmente no verão, mostre cheiro e gosto que são

incompatíveis com a potabilidade.

Capitais, como Porto Alegre, e cidades importantes, como Pelotas e

Caxias do Sul, exibem números medíocres no que se refere a coleta e

tratamento de esgotos. E os prefeitos se queixam de que, além de

caras, as obras de saneamento geram reclamações da população e

manchetes negativas por causa dos buracos. E, quando estão concluídas,

não aparecem.

Quando se olha para as nações desenvolvidas, o que chama a atenção em

termos de mortalidade infantil e controle de doenças evitáveis é que

todas fizeram o dever de casa. Onde serviços essenciais –

principalmente água, esgoto, resíduos e drenagem – são oferecidos à

maioria da população, as estatísticas sanitárias mostram-se amplamente

favoráveis. Aqui no Brasil, as doenças evitáveis com boa

infraestrutura de saneamento continuam ocupando 70% dos leitos

hospitalares.

Para mudar este enfoque, é preciso esforço e visão de longo prazo. O

que infelizmente está muito longe do viés imediatista da maioria dos

governantes, dos parlamentares, da imprensa e da própria população.

Parece que não aprendemos nada nesses anos todos. O panorama em pleno

século 21 continua dando razão ao velho ditado de que o estadista é

aquele que mira a próxima geração; já o demagogo é o que foca na

próxima eleição. E este tem levado vantagem nas últimas e péssimas

safras de eleitos.

Resta ter esperança de que a próxima troca de prefeitos e vereadores,

agora em 2012, seja uma boa ocasião para tentar reverter o resultado

desta equação cruel e o saneamento ganhe o lugar que merece entre as

prioridades dos candidatos.

Autora: Cecy Oliveira, jornalista. Publicado originalmente no jornal Zero Hora.

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