O sentimento da arquitetura

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“O sentimento da arquitetura é, provavelmente, um dos primeiros que os homens experimentaram. As moradias primitivas encravadas nas montanhas, reunidas no meio de pântanos, indubitavelmente originaram nos nossos antigos avós um sentimento confuso feito de mil outros e do qual desencadeou, no decorrer dos séculos, aquilo que nós chamamos sentimento da arquitetura”. Giorgio de Chirico

A Fundação Iberê Camargo traz a Porto Alegre a primeira exposição do artista Giorgio de Chirico na capital gaúcha – e uma das poucas oportunidades para vê-lo no Brasil. Apresentada pelo Ministério da Cultura e pela Fiat Automóveis, a mostraDe Chirico: O Sentimento da Arquitetura – obras da Fondazione Giorgio e Isa de Chirico tem curadoria da italiana Maddalena d’Alfonso, crítica de arte e arquiteta que vive em Milão. Depois da Fundação, a exposição segue para a Casa Fiat de Cultura e o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP).

Ao todo, a exposição reúne 45 pinturas e 11 esculturas do período chamado neometafísico, entre os anos 1960 e 1970, além de 66 litografias realizadas para os “Calligrammi di Guillaume Apollinaire” (1930), apresentadas aqui pela primeira vez juntas – todas cedidas exclusivamente pela Fondazione Giorgio e Isa de Chirico, na Itália

Nascido em Volos, na Grécia, Giorgio De Chirico (1888 -1978) foi antecessor de algumas das mais importantes temáticas do pensamento artístico moderno e contemporâneo. Pintor, escritor e crítico, promoveu, junto a Alberto Savinio, Carlo Carrà e Giorgio Morandi, a pintura metafísica, que retoma a expressão da filosofia grega “para além das coisas físicas”. Criada por De Chirico, a corrente não buscava novas formas, como as tendências de vanguarda do século XX, mas novos significados. Em suas composições, a linguagem, o uso da luz e da perspectiva eram trabalhados de modo tradicional – mas a atmosfera, o silêncio e o mistério causavam certo mal-estar.

A arte metafísica influenciou o grupo dos surrealistas, que De Chirico chegou a integrar por um breve período. Os surrealistas viram nele uma espécie de “pai” do movimento, embora tenham rejeitado sua obra produzida após 1919. Foi a partir deste ano que o artista empreendeu um retorno ao classicismo, passando, em seguida, por fases de inspiração naturalista e barroca, sempre conseguindo manter um caráter visionário e único na história da arte. A neometafísica foi a última aventura artística de De Chirico, em um movimento caracterizado pela exultação através do uso da cor e pelo caráter poético do tratamento dado aos protagonistas, bem como pelo especial e inovador uso do espaço como palco da relação entre o homem moderno e o seu mundo. Nos trabalhos deste período, são típicas as figuras dos arqueólogos e dos manequins.

Neste ponto, há um encontro evidente entre sua obra e a de Iberê Camargo, de quem De Chirico foi professor e mestre, tendo dado aulas ao jovem artista brasileiro em Roma, entre 1948 e 1949. “Iberê sempre relatava esse período, que foi muito forte para ele. Foi um momento de absorção de modelos”, destaca Mônica Zielinsky, coordenadora do projeto de catalogação da obra de Iberê Camargo. Embora ele negasse uma aproximação temática com de Chirico, Mônica acredita que haja semelhanças. “Com André Lhote [com quem estudou na França], Iberê aprendeu a composição, a alternar claros e escuros, e com de Chirico tomou um pouco da alma, da solidão, e uma certa densidade da pintura”, defende. Já o filósofo, sociólogo e crítico de arte francês Jacques Leenhardt, responsável pela curadoria da exposição Os meandros da memória, com obras do Acervo da Fundação Iberê Camargo, a afinidade dos dois se encontrava na expressão do mistério que envolvia as coisas. Além disso, os já citados manequins, e até mesmo os carretéis, foram figuras emblemáticas presentes na obra de ambos, ainda que de maneira diversa.

Segundo a curadora da exposição, nas obras de De Chirico “o imaginário urbano e a cidade encarnam a dimensão interior e psicológica do homem moderno”. O artista foi uma espécie de “cidadão do mundo”: além de Volos, viveu em Mônaco, Paris, Ferrara, Roma e Nova York, e viajou por diversos outro locais. A experiência de universos culturais diversos moldou sua arte, na qual as cidades aparecem como reinterpretações simbólicas de arquiteturas específicas. É o caso de locais como a igreja de Santa Maria Novella, em Florença, a Mole Antonelliana de Turim, e a Gare Montparnasse de Paris, que, segundo Maddalena, “vêm acopladas como fragmentos em uma única composição tornada harmônica pela luz, tonalidade e matéria pictórica”.

Por isso, a proposta curatorial da exposição que vem ao Brasil é justamente a de examinar sua propensão à arquitetura, tomando como campo de pesquisa a cidade e seus cenários, amplamente representados em suas obras. O objetivo é oferecer ao visitante uma leitura do espaço urbano “dechirichiano” e mostrar como o artista estabelece a relação entre a figura e o espaço arquitetônico.

Com o apoio da Fondazione Giorgio e Isa de Chirico e integrada às comemorações do “Momento Itália/Brasil 2011-2012”, a exposição itinerante inicia pela Fundação Iberê Camargo, onde permanece de 9 dezembro de 2011 a 4 de março de 2012, segue para a Casa Fiat de Cultura, de 20 de março de 2012 a 17 de junho de 2012, e se encerra no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – MASP, de 29 de junho de 2012 a 20 de setembro de 2012.

Tome nota

Exposição: até 4 de março

Terças a domingos: 12 – 19h – quintas das 12 às 21h – Entrada franca

 

 

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