Na rota da excelência

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Um novo ranking de universidades brasileiras revela o bom ensino em instituições menores, mais especializadas e, não raro, distantes dos grandes centros.

Pouca gente provavelmente ouviu falar da Faculdade Arquidiocesana de Mariana,em Minas Gerais, ou da gaúcha Palotina. Pois ambas figuram no topo de um ranking inédito de universidades que, além de reforçar notórios redutos de bom ensino, derrama luz sobre um grupo desconhecido de altíssimo nível. O retrato da excelência que se depreende daí é bem diferente do traçado pelo Ministério da Educação (MEC). Enquanto o termômetro oficial dá uma nota a cada instituição com base em um balaio de variáveis que compreende até a opinião dos alunos acerca da faculdade, o novo medidor se atém ao principal – o desempenho na sala de aula. Ele é produto da média aritmética de todas as notas alcançadas pelos jovens de uma mesma instituição no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade). O MEC já faz isso por curso, mas não para o conjunto da universidade. Essa nova aferição traz, logo de salda, uma constatação surpreendente, para a qual chama atenção o economista Claudio de Moura Castro, coordenador do trabalho: “Faculdades menores e mais especializadas estão se consolidando por rodo o país, aparecendo à frente até das federais”.

É curioso notar que, entre as 100 melhores universidades, 65 são particulares, algo que os rankings oficiais já sinalizavam – mas que o atual enfatiza com números jamais vistos. Eles dão a dimensão do avanço bem recente de um conjunto de instituições que antes patinava na zona do mau ensino (onde muitas, lembre-se, ainda estão). É verdade que 77% das matrículas no Brasil se concentram no setor privado, daí ser esperado mesmo que a maioria das campeãs saia desse grupo. Ainda assim, o resultado é contundente por quebrar a lógica anterior. em que praticamente só as públicas ficavam no topo. Trata-se de um reflexo do acirramento da guerra por alunos. que força melhorias. “Fizemos uma varredura no quadro de professores e contratamos para o lugar dos que saíram só geme com bom mestrado e Ph.Ds, para ensinar na graduação”, conta Carlos César Bandeira, de 65 anos, reitor da Faculdade do Maranhão (Facam),em São Luís, a mais bem posicionada do estado, que avalia: “Sem isso, logo desapareceríamos”.

O novo ranking também alça ao time das melhores duas instituições federais que, em alguma medida, guardam semelhanças com universidades estrangeiras de alto nível – o Instituto Militar de Engenharia (IME, o terceiro lugar da lista), com sede no Rio de Janeiro, e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA, na sexta posição),em São Josédos Campos. Ainda com base em dados do MEC, a pesquisa encabeçada por Moura Castro mediu quanto cada universidade soma de conhecimento aos estudantes nos quatro ou cinco anos de estudos. É algo possível por meio de um cálculo estatístico que permite comparar o resultado da turma que ingressa com o daquela que se forma. Pois é aí que o desempenho dos dois institutos mais espanta. Com peneiras para a seleção de alunos que chegam a registrar noventa candidatos para uma única vaga, eles dão a largada com os melhores cérebros – um patamar já muito elevado do qual é naturalmente mais difícil avançar. Mas conseguem, e de forma admirável.

A história dos dois institutos se confunde. O embrião do IME foi plantado em 1792,com a criação da Real Academia de Artilharia. Ganharia em 1959 o nome atual. Uma década antes uma turma já saíra de lá para formar o ITA, que teve como primeiro reitor um engenheiro americano do prestigiado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MlT). A experiência desses dois centros de origem militar ajuda a decifrar os caminhos para a excelência. As cerca de oito horas diárias que os estudantes passam ali imbuídos de suas investigações científicas, em geral de cunho muito prático, são apenas a parte mais visível de uma rotina que não cessa. A maratona segue noite adentro. Nos dormitórios do lTA, onde os alunos residem, não se vê TV nem se ouve música alta, mas estuda-se, e muito. “É um ambiente que estimula o tempo todo a criação intelectual”, resume o cearense Thiago Feijão, de 22 anos. O esforço é incentivado por professores gabaritados, de prontidão no Campus. Entende-se por que esses jovens são tão disputados pelo mercado. Recentemente, uma empresa esteve no IME na tentativa de garantir a contratação de uma turma inteira da área de engenharia de materiais -em vão. Detalhe: os estudantes ainda e estavam a dois anos da formatura.

O fato de as grandes universidades federais não aparecerem entre os primeiros no ranking de Moura Castro não significa que elas não ofereçam alguns dos melhores cursos do país. Quer dizer apenas que a qualidade ali varia de um curso para outro, o que é, até certo ponto, de esperar em estruturas maiores. O que não se sabia até então é que a excelência vem se revelando também longe dos grandes centros, em pequenas e desconhecidas instituições que brotam no setor privado. Nesse sentido, o novo ranking presta um serviço de valor, já que trata de tirar do anonimato ilhas de alto nível que destoam no ainda atrasadíssimo ensino superior brasileiro.

Por Sandra Brasil para Revista VEJA.

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