Mais do que uma simples nota
Atacada na década de 1990, a prova tradicional continua sendo vista como o principal instrumento na avaliação do aprendizado – mas há instrumentos alternativos para complementá-la
Por Daniel Cardoso
Avaliar a própria avaliação: eis aí um dos maiores desafios (e uma das maiores controvérsias) no debate sobre o sistema educacional – no Brasil e lá fora. Desde meados da década de 1990, algumas vertentes na pedagogia questionam aquela que é vista como a pedra basilar das avaliações escolares: a prova. Para alguns pedagogos, a simples aplicação de perguntas, com atribuição de notas de zero a dez, não avalia os alunos, mas os reprime.
“A ideia, na época, era que havia muitas estruturas hierárquicas dentro da sala de aula, e que era preciso derrubá-las”, lembra o professor José Francisco Soares, membro do Grupo de Avaliação e Medidas Educacionais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Essa pedagogia libertária foi aplicada na última década do século 20, em diversas partes do Brasil – mas hoje está desacreditada. “A avaliação é a evidência concreta do aprendizado. Nesse sentido, o aluno tem o direito de ser avaliado”, opina Soares.
Isso não significa, contudo, que a prova, em sua forma tradicional, seja suficiente para avaliar a fundo a formação dos alunos. Até porque existem mais nuances ambiguidades entre o zero e o dez do que se pode supor à primeira vista. “A nota oito, quando dada por um professor muito rigoroso, pode ser considerada mais alta que a nota dez conferida por um educador com baixo nível de exigência”, exemplifica Soares. Por isso, a ordem do dia é complementar a avaliação com técnicas e métodos variados, mas sem deixar de lado a abordagem clássica.
Um exemplo dessa mistura entre o tradicional e o experimental pode ser encontrado na subida do Morro da Lagoa, em Florianópolis. Lá, os alunos da escola de ensino fundamental Sarapiquá contam com uma vasta gama de opções e instrumentos que garantem uma avaliação mais completa do que o usual. O resultado das provas ainda representa cerca 20% da nota final – mas, além delas, são aplicados outros métodos, como a avaliação da participação em aulas, eventos, olimpíadas escolares etc. Os professores ficam atentos à produção dos alunos no dia a dia, analisando seus textos, os trabalhos em grupos e até mesmo os cadernos de cada um dos estudantes. Tudo isso serve para relativizar aquela aura solene – e, às vezes, assustadora – que cerca a prova escrita. “Não deixamos a prova de lado, mas buscamos sempre desmistificá-la, mostrando aos alunos que eles têm condições de responder às questões”, explica Mara Lúcia Bastiani, coordenadora pedagógica da Sarapiquá.
Para Soares, da UFMG, o próprio convívio entre professor e aluno gera formas de avaliação que vão além do esquema de perguntas e respostas. “A grande vantagem é que o educador está o tempo todo próximo ao aluno, podendo perceber rapidamente seus problemas. E essa percepção se desenvolve de forma independente dos testes formais”, opina.
Para Cláudio de Moura Castro, assessor especial da presidência do Grupo Positivo, de Curitiba, essa combinação de métodos consagrados com novos instrumentos é crucial. Segundo ele, a prova tradicional permite captar dimensões qualitativas e avaliar as capacidades de síntese, de análise e de criatividade. “Além disso, é um instrumento de diálogo do professor com o aluno. Faz parte do processo pedagógico de ensinar e aprender”, ressalta.
O uso da tecnologia é uma das formas promissoras de se complementar a avaliação clássica. Moura Castro prevê que a aplicação de provas por meio de programas de informática será o próximo passo no aprimoramento dos métodos pedagógicos. Funciona assim: o aluno senta em frente ao computador e começa a responder às perguntas; de acordo com o número de acertos, o software elenca outras questões relacionadas àquele tema, em nível crescente de dificuldade. Mas, quando são os erros que se repetem, o computador puxa as perguntas mais fáceis. “O programa vai achar rapidamente a fronteira entre o que o aluno sabe e o que não sabe, escolhendo perguntas próximas ao conhecimento de cada um, sem perder tempo com perguntas muito mais difíceis ou muito mais fáceis do que as que o aluno pode responder”, diz.
Outra tendência tem a ver com a variedade de conteúdos colocada à disposição dos estudantes. A proposta consiste em acrescentar ao ensino atividades que não se resumem à transmissão de conhecimentos objetivos, mas também contemplam o exercício de valores e princípios éticos. Nos Estados Unidos, por exemplo, os alunos são incentivados a realizar atividades extracurriculares – e, obviamente, recebem pontos a mais por isso. “No Brasil, ainda não se tem esse hábito. Mesmo nas boas escolas, onde os alunos têm boas condições de aprendizado, não há incentivo para ações como o voluntariado, a cidadania e os valores de vida”, aponta Mozart Neves Ramos, presidente executivo da ONG Todos pela Educação.
Padrão nacional
Todas essas inovações dizem respeito à chamada avaliação interna – ou seja, aquela feita diretamente pelos professores, como parte do currículo escolar. Já na avaliação externa – feita pelo governo para averiguar a qualidade da educação no país –, a prova reina absoluta. Para Soares, da UFMG, são os exames nacionais, como a Prova Brasil, que dizem à sociedade se o aluno está ou não aprendendo. “A Prova Brasil é feita para o diagnóstico, e não para uma seleção. Com base nela, podemos entender como está o ensino no Brasil, quais são as deficiências e as diferenças entre uma região e outra do país. Assim, podem-se fazer os ajustes necessários para melhorar o nível escolar brasileiro”, afirma Soares.
Por outro lado, o Enem está perdendo um pouco de seu caráter avaliativo – e se tornando um mero processo seletivo para as universidades. Hoje, diz ele, há pais que escolhem as escolas para seus filhos apenas com base nos resultados mais recentes do Enem. “Você imagina um consultor financeiro fazendo análises exclusivamente a partir das cotações de ontem na Bolsa de Valores? É claro que não, pois uma ação pode estar valorizada hoje e despencar em uma semana. Também é assim com as escolas”, critica ele.
Fonte: Revista Amanhã.










