Livros, música e convalescença

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No último mês de outubro, um check-up rotineiro revelou a presença de um aneurisma numa das artérias de minha perna direita. Como a única opção era cirúrgica decidi submeter-me a uma intervenção no dia 1º de novembro.

Apesar dos resultados serem francamente positivos, enfrentei uma longa e penosa recuperação, visto as dificuldades de locomoção. Aproveitei a oportunidade para por a leitura em dia, já que existiam algumas dezenas de livros na fila de espera.

Não vou mais compartilhar minhas dores com os pacientes leitores, mas pretendo dividir algumas considerações a respeito dos títulos e autores que me acompanharam nas últimas três semanas.

Iniciei minha maratona literária com a leitura de O Cemitério de Praga, recente lançamento do autor Umberto Eco. A sinopse do livro é um poderoso chamariz para os leitores ávidos por tramas e passagens obscuras da história do século XIX. Em termos históricos o autor prima por sua já notória erudição e nos transporta para um dos mais importantes períodos libertários da Europa, colocando em cena personagens como Garibaldi, Cavour, Mazzini, Alexandre Dumas, Napoleão III, chegando até Charcot, Freud, Victor Hugo, Zola e o polêmico caso Dreyfus. O livro atinge momentos empolgantes em sua trama político policialesca, mas há passagens em que o autor parece se perder em suas elucubrações sobre judaísmo, maçonaria, religião católica, intrigas jesuíticas e satanismo. O foco da história narrada por Eco é montar uma ficção sobre a origem dos Protocolos dos Sábios de Sião. Confesso que a duras penas completei a leitura já que o desenrolar da obra traz uma certa decepção em relação ao apregoado nas resenhas.

Para quem está em convalescença, nada mais apropriado do que um livro chamado Música e Medicina. A coleção, em 3 volumes descreve o confronto entre a inspiração, a saúde e a doença na vida dos grandes compositores dos séculos XVIII e XIX. O primeiro volume aborda Haydn, Mozart, Beethoven e Schubert. O segundo volume inclui Hummel, Weber, Mendelssohn, Brahms e Bruckner. Estou lendo o terceiro volume desta coleção, que trata da vida e obra de Chopin, Smetana, Tchaikovski e Mahler.

Seu autor é o médico especialista em Clínica Médica, Dr. Anton Neumayr. O mesmo é um apaixonado pela música clássica, motivo que o levou a graduar-se no renomado Mozarteum, o Conservatório de Música de Salzburg. Além do exercício da medicina, Dr. Neumayr é um excelente pianista e durante alguns anos foi membro da Wiener Philharmoniker.

Ao iniciar sua obra literária, o autor não só se dedicou a analisar a vida e obra de cada compositor bem como a analisar as doenças que os acompanharam durante a vida algumas das quais, contribuíram para suas mortes. O trabalho do Dr. Neumayr é investigativo e suas pesquisas são amparadas por dezenas de documentos originais e prontuários dos vários médicos que trataram os músicos. No caso de Bedrich Smetana o autor transcreve os originais da detalhada autópsia do músico. Ela foi realizada com autorização da família e liderada pelo Dr. Jan Hlava, assistido por mais cinco médicos. No decorrer de suas pesquisas o autor expõe os vários equívocos e falsos diagnósticos aceitos pelos historiadores no decorrer de dezenas de anos.

Partindo de diários e cartas particulares dos músicos, o Dr. Neumayr envolve emocionalmente os leitores com a vida de cada compositor, oferecendo-nos uma perspectiva única de suas grandezas ao mesmo tempo em que evoca uma análise sobre a criatividade, a vulnerabilidade física e o legado que eles deixaram para o mundo.

Bruckner, de Derek Watson.

Este livro, lançado em 1975 encontra-se esgotado há vários anos. Graças à Internet consegui localizar um exemplar usado, em excelentes condições de preservação, na TAC-Books, loja de livros usados, localizada na cidade de Tacoma, no distante estado de Washington.

Além da vida e obra do compositor austríaco, este livro nos traz uma avaliação completa da obra de Bruckner, em especial de suas sinfonias.

Não há dúvida de que as nove sinfonias de Anton Bruckner são consideradas as maiores realizações da era Romântica. Elas se distinguem por sua individualidade e intimidade com uma profunda natureza espiritual. Para o compositor a música era a celebração da simetria. Suas sinfonias são como trabalhos da arquitetura gótica em sua grandeza. Nelas ele capturou além da atmosfera cultural do Império Austro-Húngaro, o poder e a autoridade de Deus e do Imperador, a poderosa força do homem do campo, e o surgimento de uma nova era para a humanidade.

Amplamente rotulado como um compositor de músicas ao estilo wagneriano, Bruckner desenvolveu uma técnica de composição totalmente distinta ao da escola de Bayreuth, apesar de idolatrar Wagner e tendo a ele dedicado sua 3ª Sinfonia.

Um dos capítulos mais interessantes da obra de Derek Watson trata das dezenas de revisões sofridas nas partituras originais do compositor. Algumas foram feitas pelo próprio Bruckner que se deixava influenciar por dirigentes como Nikish e Levy. Mas a grande maioria foi feita por seus ex-alunos Löwe e Schalk. Eles simplesmente mutilaram a obra de Bruckner. Com a aprovação do autor, reescreveram a Oitava Sinfonia, alteraram a orquestração da Sétima e retrabalharam o final da Terceira. Num período de dez anos, os irmãos Schalk e Ferdinand Löwe apresentaram 17 versões das nove sinfonias de Bruckner. Graças aos musicólogos Robert Haas (1886-1960) e Leopold Nowak, ambos bibliotecários do Departamento de Música da Biblioteca Estatal de Viena, a obra de Bruckner foi revisada, tendo como base os originais das partituras que se encontravam arquivados na Biblioteca. Ambos trabalharam arduamente nesta tarefa gigantesca. Nowak conseguiu concluir o trabalho iniciado por Haas, e logo após a II Guerra ele editou a Edição Completa das obras de Bruckner.

A Música:

Durante minha convalescença intercalava a leitura com boa música. Alguns exemplos dos DVDs que assisti:

Má Vlast – Bedrich Smetana. Czech Philharmonic Orchester sob a direção de Václav Neumann.

Symphony nº2: Ressurrection –Gustav Mahler. Lucerne Festival Orchestra sob a direção de Claudio Abaddo.

Der Freischutz –Weber. Chor und Orchester des Opernhaus Zurich sob a direção de Nikolaus Harnoncourt.

Oitava e Nona Sinfonias – Anton Bruckner. Wiener Philharmoniker sob a direção de Herbert Von Karajan.

Quarta Sinfonia – Anton Bruckner. NDR Sinfonieorchester sob a direção de Günter Wand.

Sinfonia nº4 e Concerto para Violino – Peter Tchaikovsky. The Moscow Radio Symphony Orchestra sob a direção de Vladimir Fedoseyev.

Bach Greatest Hits – seleção do que há de melhor da música de Bach, incluindo os Concertos de Brandenburgo, o Allegro do concerto para três cravos, Suíte para Cello nº1, Badineries e Gavotas, Oratório de Natal, Cantata do Café, excertos da Paixão segundo São João, Missa em si menor, Contrapontos da Arte da Fuga. Diversos conjuntos, orquestras, dirigentes e solistas.

Espero que algumas das sugestões, tanto de livros, como de músicas, agradem ao leitor e que as mesmas possam ser uma boa opção de presente de Natal.

Arthur Torelly Franco

torelly@polors.com.br

 

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