Investimento em Nanotecnologia no Brasil é discreto

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O avanço da nanotecnologia no mundo é visível. Já são mais de mil produtos de consumo em diversos segmentos de atividade, como cosméticos, tecidos e aparelhos eletrônicos. No Brasil, contudo, o lançamento de produtos não acompanha nem perto o ritmo internacional. Também são escassas as informações sobre as aplicações de recursos do setor público. A previsão, contudo, é que esse panorama mude em função da importância crescente de pesquisas nessa área envolvendo os diferentes segmentos da economia.

Segundo Samuel César Júnior, técnico de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), em oito anos – de 2000 a 2007 – o investimento federal em nanotecnologia alcançou meros R$195 milhões, sendo que o Estado de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul concentraram dois terços desses recursos. A soma significa menos de 5% do investimento total do Brasil em pesquisa no período (3,9 bilhões). Foram 504 projetos (3,89%) de um total de 12.969 apoiados por financiamento governamental. Desse total, 91 projetos contaram com empresas envolvidas.

“Isso é muito pouco para uma área estratégica”, explica César Júnior. “Em 2009, por exemplo, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) lançou um de seus últimos editais direcionados a novos projetos de nanotecnologia, de apenas R$15 milhões. Os recursos são escassos, mas mais precária é a articulação entre as instituições de pesquisas universitárias e as empresas brasileiras. A indústria não sabe o que está sendo desenvolvido no ambiente acadêmico”, diz ele. O governo federal elegeu a área como prioritária para ser atendida, daqui para frente, pelos programas federais de incentivos.

No campo da pesquisa acadêmica, pelo menos na área de saúde, a nanotecnologia já é uma realidade, avalia Willian Waissmann, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), um dos principais centros de pesquisa dessa área. A nanotecnologia é uma área multidisciplinar que associa química, física, biologia e engenharia na manipulação e construção de moléculas novas com propriedades distintas.

“Trata-se de uma plataforma que pode operar uma verdadeira revolução em vários setores industriais”, diz ele, citando exemplos de vários produtos de uso corriqueiro, como para limpeza de petróleo na água, plásticos para guardar alimentos meias que não deixam cheiro ou tintas que impedem o risco. “Na área de saúde, a nanotecnologia tem momentos importantes na biotecnologia para produção de fármacos, quimioterápicos e outros medicamentos, na produção de vacinas e biossensores e na regeneração de tecidos e óssea”, afirma.

Os obstáculos, no entanto, de acordo com Waissmann, estão entre a criação e a pesquisa, a geração entre patentes até a produção comercial. “Nosso maior problema está entre o processo de criar e o de transformar essa criação em produto comercial.” Segundo ele, o estímulo para superar esse entrave tem que ser dado por uma política de Estado, que inclua investimentos e superação da burocracia e de normas técnicas.

Estudos realizados no meio empresarial apresentam um cenário igualmente severo em relação ao estágio atual da nanotecnologia no país. Pesquisa divulgada pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro mostra que o mercado de produtos originalmente desenvolvidos no Brasil somou apenas R$115 milhões em 2010. Enquanto isso, o volume de negócios no mercado internacional atingiu US$383 bilhões, incluindo o faturamento com 1.015 produtos para o consumidor final ou intermediários.
Dados do Ministério da Ciência e Tecnologia, divulgados pela Firjan, indicam que existem hoje150 empresas desenvolvendo produtos ou prestando serviços a partir de conhecimentos em nanotecnologia.

Um dos setores com crescimento mais acelerado no desenvolvimento de novas tecnologias, já com várias aplicações em escala industrial, é o automobilístico. “A primeira onde de materiais de nanotecnologia representou um avanço muito forte na indústria, principalmente nos materiais plásticos. Eles se tornaram mais fluidos, duráveis e resistente, aplicados a para-choques, conectores e centrais elétricas inteligentes”, diz Flávio Campos, membro do Conselho Diretor do SAE Brasil e diretor de engenharia da Delphi. “O desafio é obter escala e melhorar as condições de custo, tornando os produtos mais acessíveis ao consumidor”, afirma.

Segundo Waissmann, para melhorar o cenário está em discussão a criação de uma associação ligada ao assunto, a partir do Fórum de Competitividade de Nanotecnologia, conduzindo o âmbito da Secretaria de Tecnologia e Inovação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Quatro grupos de trabalho foram construídos nesse fórum – mercado, marco regulatório, cooperação internacional e formação de recursos humanos.

O objetivo, destaca João Batista Lanari, diretor de tecnologias inovadoras do MDIC, é aumentar a competitividade do país no mercado mundial por meio da articulação entre as necessidades do setor privado, governos e academia. “A intenção é buscar o consenso em torno de oportunidades e desafios, definindo metas e ações voltadas para implementação de uma política industrial de desenvolvimento da produção.”

Fonte: Genilson Cezar / Valor Econômico

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