Habitante Irreal

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Durante seis anos, Paulo Scott, 45, arquitetou um manifesto contra os resultados produzidos por sua geração no poder. O “libelo”, concebido em forma de romance, se chama “Habitante Irreal” e é seu primeiro livro pelo selo Alfaguara.

Gaúcho radicado no Rio há dois anos e meio, Scott aborda a sua desilusão com a passagem dos contemporâneos pela política. Hoje, são homens e mulheres entre os 40 e os 50 anos que, na década de 80, eram jovens contestadores, idealistas e ousados. Para Scott, não foram capazes de mudar as coisas. “A minha geração falhou as outras.”

Nesse romance de contestação, não é à toa que um dos protagonistas seja homônimo do autor. “Não faço uma crítica apenas aos meus amigos e ex-colegas que hoje são pessoas importantes no governo, no Judiciário e na grande imprensa. Faço uma crítica a mim mesmo”, afirma.

Paulo -o do livro- tem 21 anos e é militante do PT. Cansado da vida política, encontra uma índia de 14 anos que vive com a família à beira de uma estrada e, subitamente, se encanta por ela.

O ano é 1989. O rapaz reencontra na menina a esperança e a razão de viver. Ela se torna um desafio, alguém que ele busca ajudar por conta própria, à revelia do Estado.

“Minha indignação com a invisibilidade a que são relegados os índios se tornou outro grande motivo para escrever o livro”, conta. A relação entre o partido do jovem (que foi também o de Scott até a metade dos anos 90) e as políticas indígenas no Brasil está presente no romance.

Scott deixa “muito claro” que a história do protagonista não é a dele. “Não sou tão ingênuo nem tão corajoso quanto o Paulo do livro. Ele é uma criança que brinca de mudar o mundo. Na política, só restaram os que tiveram estômago e coragem. Os mais puros caíram fora.”

Fama jurídica
 
Depois da militância política no PT e no Diretório Central de Estudantes da PUC-RS (do qual foi presidente em 1986, enquanto estudava direito), Scott fez mestrado e lecionou direito econômico durante dez anos na universidade em que se graduou.

Após a publicação de um certo livro, Scott ganhou projeção no meio literário. No meio literário da área jurídica, bem entendido.

“O Planejamento e o Papel do Estado como Agente Normalizador da Atividade Econômica do Setor Privado”, sua dissertação de mestrado, tornou-se referência logo de sua publicação. Um dos avaliadores do trabalho de Scott foi o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Eros Grau.

“Foi um estudo importante na época, pioneiro, obra de referência por anos. Mas hoje já está bastante desatualizado”, diz Scott.

Apaixonado por poesia, o escritor viu seu nome começar a circular para além das letras jurídicas ao publicar, em 2003, a coletânea de contos “Ainda Orangotangos” pela extinta editora Livros do Mal. Três anos depois, a Bertrand Brasil obteve os direitos da obra e a relançou.

Em 2008, o longa de 81 minutos “Ainda Orangotangos” estreou nos cinemas com um virtuosismo que chamou a atenção da crítica: era todo filmado em um único plano-sequência, sem cortes.

E mais um trabalho de Scott deve migrar para a sala escura em breve. A produtora RT Features adquiriu há pouco os direitos de adaptação do romance “Voláteis”.

Fonte: Guilherme Brendler / Folha de S.Paulo

Problemas em bom livro não encobrem sua engenhosidade

“Habitante Irreal”, de Paulo Scott, está longe de ser um livro comum.
A história começa no final dos anos 80, em Porto Alegre, com Paulo, um jovem militante desiludido que se envolve com uma menina índia e chega, após uma longa série de desdobramentos, próximo ao nosso presente histórico, passando, nesse meio tempo, por Londres e por uma série de Estados brasileiros.

Em um movimento que lembra um pouco uma estratégia usual em romances de Ian McEwan (como “Reparação” e “Solar”), Scott estabelece, logo de início, um momento de grande intensidade que transforma tudo, e deixa, com engenho, que ele reverbere longamente nas vidas de todos aqueles que, de algum modo, tiveram ou viriam a ter algo a ver com o ocorrido.

O senão da obra é que existe um incômodo descompasso entre o longo alcance daquilo que é narrado e a forma como essa narração se desenrola, seja pela inclusão meio despropositada de certos personagens que entram e saem da trama, seja por eventuais alternâncias de foco que resultam forçadas, seja, principalmente, por um uso da linguagem menos ambicioso que o material apresentado parece pedir.

E que surge, de vez em quando, como no trecho a seguir -numa espécie de inteligência específica da frase que teve, por exemplo, em Saul Bellow um mestre-, indicando ao leitor que algo mais poderia estar acontecendo ali: “Não está conseguindo lidar com essa disponibilidade dele, com sua dedicação, com as surpresas renovadas em prazos cada vez mais curtos, enquanto seus gestos e atitudes elétricas, convencidas, o distanciam rápido demais do dia e hora em que ela mais o adorou. Paulo se distancia por não conseguir ficar no presente. O presente é um fardo, não pode servir de instrumento.”

O senão não altera o fato, contudo, de que, ao término da leitura, àquela sensação de quase luto inevitável que o fim de um bom livro sempre traz, soma-se a impressão de que seria o caso de começar a ler de novo.
 
Adriano Schwartz, o autor deste artigo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo, é professor de literatura da ECA-USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades).
 

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