Dalí, Lorca e Buñuel

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Em seu livro de memórias, Meu último suspiro, o cineasta Luis Buñuel (1900-1983) registra sua passagem pela Instituição de Ensino Livre de Madri:

Fui matriculado na Residência dos Estudantes, onde permaneceria durante sete anos (1917-1925). São tão ricas e vivas minhas recordações dessa época que posso dizer, sem medo de errar, que sem a Residência minha vida seria outra.

Esta pequena universidade, calcada nos moldes de Oxford e Cambridge, foi fundada em 1910 e tornou-se uma das iniciativas educacionais mais importantes da Espanha moderna. Dirigida por Alberto Jiménez, homem de vasta cultura, a Residência contava com salas de conferências, vários laboratórios, biblioteca sempre aberta para os estudantes bem como vários campos de esporte. Os alunos, se quisessem, podiam mudar de disciplina no meio do curso. Foram apoiadores incondicionais da Residência, Miguel de Unamuno, José Ortega y Gasset e o poeta Juan Ramón Jiménez.

Os mais distinguidos conferencistas da época passaram pela Residência: H.G. Wells, G.K. Chesterton, Albert Einstein, Marie Curie, Le Corbusier, François Mauriac, Blaise Cendrars, Paul Claudel e John Maynard Keynes.

No campo musical a Instituição de Ensino recebeu Manuel de Falla, Andrés Segovia, Wanda Landowska, Darius Milhaud, Igor Stravinski, Francis Poulenc e Maurice Ravel.

Os cursos mais disputados eram Medicina, História Natural, Agronomia, Engenharia, Filosofia, Letras e Belas Artes. Esta inovadora instituição de ensino laica foi extinta a partir da guerra civil de 1936.

Dois anos após o ingresso de Buñuel, juntaram-se a ele Federico Garcia Lorca (1898-1936) e Salvador Dalí (1904-1989). Desde seu ingresso, Dalí era considerado o excêntrico da comunidade. Já Lorca, proveniente de Granada, viera recomendado por seu professor de sociologia. Com um livro em prosa publicado – Impresiones y Paisajes – era inteligentíssimo, encantador, elegante. Viera estudar Filosofia, mas logo foi desertando das aulas para se lançar na vida literária. Seu quarto, na Residência, tornou-se um dos pontos de encontro mais concorridos de Madri.

Buñuel recorda em seu livro: Nossa amizade, que foi profunda, data de nosso primeiro encontro. Embora tudo opusesse o aragonês tosco e o andaluz requintado – ou talvez em virtude desse contraste -, estávamos quase sempre juntos. Lorca me fez descobrir a poesia, sobretudo a espanhola, que conhecia admiravelmente, e também outros livros.

Filho de um notário de Figueras, na Catalunha, Salvador Dalí apareceu na residência três anos depois de mim. Queria dedicar-se às belas artes. Passando uma manhã num corredor da Residência e vendo aberta a porta de seu quarto, dei uma olhada. Estava dando os últimos retoques num grande retrato que me agradou muito. Contei imediatamente a Lorca e aos demais. Todos se dirigiram ao seu quarto, admiraram o quadro, e Dalí foi admitido em nosso grupo. Para falar a verdade, tornou-se ao lado de Federico, meu melhor amigo. Nós três não nos separávamos, ainda mais que Lorca nutria uma verdadeira paixão por ele.

Quis o destino que Buñuel, Dalí e Lorca tivessem seus caminhos cruzados na Residência. Cada um deles se transformaria num gênio de sua vocação. Buñuel como cineasta, Dalí como pintor e Lorca na poesia e literatura.

Em 1925, Dalí e Buñuel foram para Paris, já que a Espanha se tornara pequena para eles. Em 1929 eles produziram o roteiro do filme Un Chien Andalou (Um Cão Andaluz) com montagem de Buñuel. Lorca permaneceu na Espanha, para melhor conhecer as paisagens, o folclore e a música de seu país. Data desta época o início de uma de suas mais conhecidas obras, o Romancero Gitano.

Buñuel e Dalí viveram até a velhice fato que possibilitou desfrutarem dos avanços técnicos e científicos do século XX, tais como as inovações nos meios de transporte, nos meios de comunicação, os avanços da física e da energia nuclear, a descoberta dos antibióticos e dos plásticos. Assistiram a duas guerras mundiais e ao surgimento do marxismo e da psicanálise.

Já o destino foi cruel com Lorca. Ao eclodir a guerra civil, a guarnição de Sevilha foi entregue ao fanático general Gonzalo Queipo de Llano, que desencadeou o terror na Andaluzia, especificamente em Granada, cidade dominada pelos falangistas. No dia 16 de agosto, Lorca, então com 38 anos foi aprisionado e conduzido para a guarnição militar de Víznar. Na madrugada do dia seguinte, o poeta, o professor Dióscoro Gonzáles e mais dois anarquistas, foram fuzilados sob a alegação de que eram comunistas subversivos. O holocausto de Granada foi perpretado sob as oliveiras de Víznar, oportunidade em que mais de dois mil republicanos foram mortos nos primeiros meses do levante.

Recomendo aos leitores que desejarem se aprofundar na vida destes três personagens ímpares, a leitura dos seguintes livros:

 

Meu último suspiro, de Luis Buñuel (Cosacnaify, 373 páginas). É mais a história de uma vida do que uma autobiografia. Luis inicia a narrativa abordando sua infância em Calanda. A seguir descreve seus melhores momentos da juventude, passados na Residência, a experiência parisiense, a guerra civil na Espanha, o exílio no México e sua trajetória como cineasta.

 

Salvador Dalí, enamorado de si mismo, de Fidel Cordero (Edimat Libros, 187 páginas). Pensar em Dalí é evocar a figura extravagante de um personagem que encarnou a imagem vulgarizada de um artista contemporâneo, ególatra e exibicionista. Mas esta biografia também é valiosa ao evocar sua irmã Ana Maria e sua esposa Gala, sua musa, chave de sua vida como de sua obra. Gala representou para Dalí o que Cosima representou para Wagner. A obra também evoca o surrealismo e a idade de prata das letras na Espanha.

 

Vida, Pasión y Muerte de Federico Garcia Lorca, de Ian Gibson (Editora DEBOLSILLO, 813 páginas). Este irlandês, naturalizado espanhol, é o responsável por esta criteriosa biografia de Lorca, bem como sobre o panorama cultural e político da Espanha, nas primeiras décadas do século XX. Após escrever a Repressão nacionalista em Granada em 1936 e a morte de Lorca, teve sua obra proibida pelo franquismo. Em 1978 passa a morar em Madri, ocasião em que dá início à biografia do poeta Andaluz. Dos três personagens citados nesta matéria, Lorca sem dúvida foi o maior. Uma pena ter morrido aos 38 anos. Também foi um grande músico e intérprete de piano e órgão. Chegou a compor algumas músicas em parceria com de Falla. Sua peça teatral Yerma, foi transformada em uma ópera.

Veja um trecho de La vida breve, de Manuel de Falla

Autor: Arthur Torelly Franco

torelly@polors.com.br

 

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