Um sonho e altos voos pelo mundo

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Ozires Silva: muita luta até a fabricação do primeiro Bandeirante

 

A história do menino de Bauru que na década de 40 sonhava em construir aviões e se tornou um líder da inovação à frente da Embraer, hoje uma das três mais importantes indústrias aeronáuticas do mundo, está registrada em detalhes no livro Ozires Silva – Um Líder da Inovação escrito por seu amigo Décio Fischetti.

O trabalho de Ozires Silva em outras áreas, como ministro da Infraestrutura, presidente da Petrobras e da Varig, e seu empenho para melhorar a educação no país também são retratados no livro. É o sexto livro que fala da história da Embraer com a visão de um dos seus principais protagonistas (os anteriores foram escritos pelo próprio Ozires) e o primeiro que detalha sua vida pessoal e trajetória profissional.

“A ideia do livro surgiu exatamente por isso. A própria trajetória do Ozires e a necessidade de mostrar um exemplo de brasileiro consciente e inovador”, diz Fischetti. A maior prova de sua competência como inovador-empreendedor é o sucesso internacional da Embraer: a empresa já produziu e vendeu mais de 7.600 aeronaves para o mundo todo. O total de pedidos em carteira hoje é de US$ 16 bilhões, o que significa três anos de produção.

Quem vê os números e o vigor dessa empresa hoje não imagina as dificuldades que existiram para transformar em realidade o projeto do Bandeirante, seu primeiro produto. No livro, Fischetti conta que o ministro Eduardo Gomes, que não gostava do Centro Técnico Aeroespacial (CTA), e principalmente do ITA, dizia que iria transformar o lugar em base aérea, para manutenção da frota da FAB.

“Quanto ao ITA, é lamentável gastar dinheiro com mordomias para professores e alunos que depois nem irão trabalhar conosco. Ainda não temos as mínimas condições de fazer aviões. Quando precisarmos, compraremos no exterior”, afirmou. A decisão abrupta do ministro de exonerar o brigadeiro Montenegro Filho, criador do ITA e do CTA, deixou Ozires desolado.

O diretor do CTA nessa época, brigadeiro Henrique Castro Neves, também endossava as opiniões do ministro Eduardo Gomes. Chegou a dizer para Ozires, durante visita que fazia ao departamento de aeronaves do CTA, onde estava sendo criado o Bandeirante: “Ozires, esse troço aqui é uma merda! Não serve para nada! Pode fechar!”

Mas a sorte e a influência do amigo Benedicto Cesar (também oficial da FAB, que sempre compartilhou com Ozires a ideia de fabricar um avião) mudaram o rumo das coisas e o projeto do Bandeirante prosseguiu. Na época, o mercado visado pela Embraer era dominado pelos fabricantes americanos Cessna, Beechcraft e Piper.

Com pouco dinheiro e uma equipe afinada, o Bandeirante ganhou os ares em outubro de 1968. Naquele dia, voltava à tona a tese do brigadeiro Cassimiro Montenegro: “Para fazer aviões, precisamos antes, fazer engenheiros competentes”.

A viabilização do Bandeirante e a consequente criação da Embraer, segundo Ozires, ensejaram diversos momentos em que ele, à frente da companhia, precisou tomar decisões sozinho, com base na sua percepção. Um desses momentos decisivos, citados no livro, foi a escolha do projetista francês Max Holst para dar credibilidade inicial ao projeto do Bandeirante. Outro, foi sua interferência para o sucesso do projeto do jato ERJ-145, símbolo da recuperação da Embraer pós-privatização.

“Existiam divergências internas quanto à posição que a turbina teria no avião. No final, decidi que os motores ficariam na cauda”, lembra Ozires. O primeiro voo aconteceu seis meses depois disso e venderam-se mais de mil exemplares em todo o mundo. A privatização da Embraer é outro assunto em destaque no livro, pois foi um dos grandes desafios enfrentados por Ozires.

“A empresa estava em uma situação muito difícil e havia demitido seis mil funcionários. Eu tinha acabado de sair do Ministério da Infraestrutura, mas decidi voltar porque o governo prometeu cumprir duas exigências feitas por mim: o pagamento de uma dívida de US$ 400 milhões e autorizar o processo de privatização da companhia”, conta Ozires.

A concorrência da FAB para a compra de novos caças supersônicos também é mencionada no livro. Na opinião de Ozires, não há alternativas para o governo brasileiro na concorrência. “Ou o Brasil compra da Embraer ou esse projeto não sai”, afirmou. O argumento de que a Embraer não sabe fazer não convence, “pois todos os aviões que ela produziu começaram do zero”.

Aos 80 anos, Ozires volta-se para projetos de educação e dedica-se à propagação de suas ideias por meio de palestras e conferências. O sucesso do ITA, segundo ele, é a prova de que a educação de qualidade produz resultados extraordinários e multiplicadores. “Sem o ITA, não haveria a Embraer nem a indústria aeronáutica de alto nível da qual nos orgulhamos.”

Fonte: Virgínia Silveira / Valor Econômico

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