O custo da ideologia na infraestrutura do país

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Em países com boa infraestrutura, ninguém dá muita importância aos canos com água enterrados no solo, à rede elétrica, às estradas asfaltadas e aos viadutos. Tudo parece fazer parte da paisagem. Como bem sabem os brasileiros, a infraestrutura só chama a atenção quando é deficitária — ou inexistente. É nas estradas esburacadas, nas casas sem rede de esgoto, nos aeroportos lotados que ela se torna gritante.

Por que vamos tão mal numa área- chave para o crescimento? Parte do problema é o baixo investimento do governo, de cerca de 1% do PIB, ante uma necessidade de pelo menos 6%. Mas ainda mais importantes são as barreiras — em larga medida puramente ideológicas — contra o capital privado. Pouco mais de 8% da malha rodoviária pavimentada, a elite em termos de qualidade, está nas mãos de empresas. Nos últimos dez anos, foram concedidos 5.500 quilômetros, enquanto o governo administra quase 200.000. No saneamento, os dados mostram um quadro de puro subdesenvolvimento. Só 32% dos brasileiros têm esgoto tratado. Mais de 30 milhões não têm sequer abastecimento de água. Não é coincidência que seja uma área de atuação quase exclusiva do governo. Menos de 9% da rede tem participação da iniciativa privada.

O anúncio de que a expansão em aeroportos de três cidades — Guarulhos, Campinas e Brasília — será feita pelo capital privado lançou no ar uma questão: será que o governo finalmente vai oxigenar o setor de infraestrutura? Ao que tudo indica, o anúncio deveu-se menos ao fim dos preconceitos e mais a uma questão bem pragmática. Pesquisadores do próprio governo já alertaram para um potencial apagão aéreo em plena Copa do Mundo de 2014, e o estado atual da maioria dos aeroportos do país é um sinal eloquente de que o problema já está aí. Dado o ranço estatizante da esquerda, é cedo para dizer se outras medidas do gênero estão a caminho. O que, sim, está claro é quanto a ideologia antiempresa custa ao país. Pelos cálculos da consultoria CG/LA, o Brasil perderá quase 500 bilhões de dólares entre 2001 e 2015 devido às barreiras à entrada do capital privado. A consultoria LCA estima que o PIB per capita quase dobraria se a infraestrutura do país atingisse o padrão dos países ricos. Cada bilhão de dólares investido em infraestrutura gera até 60.000 empregos. Passar a administração e a expansão da infraestrutura para as empresas não é panaceia. O aeroporto de Heathrow, na Inglaterra, é privado e famoso pela baixa qualidade dos serviços. Um setor público atuante, especialmente na fiscalização, é um componente central numa estratégia moderna de desenvolvimento. Mas isso não tem a ver com o modelo atual brasileiro, em que o governo não faz — e não deixa fazer.

Autor: Luciene Antunes / Revista Exame

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