Gustav Mahler, o maestro compositor (II)

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Para mim, escrever uma sinfonia é como construir o mundo – Gustav Mahler.

A obra de Gustav Mahler caracteriza-se por suas sinfonias recheadas de marchas fúnebres, imensas descrições de paisagens da natureza e a incorporação de poemas e temas religiosos interpretados por solistas e corais. Para a comunidade da época, dividida entre a música de Brahms, Wagner e Bruckner, as sinfonias de Mahler pareciam uma babel de estilos, embrulhados de forma aleatória.

Além de suas dez Sinfonias, Mahler escreveu vários ciclos de canções para orquestra, com destaque para Das Knaben Wunderhorn – ciclo de doze canções escritas entre 1892 e 1898, e Kindertotenlieder – ciclo de cinco canções escritas entre 1901 e 1904.

A incomparável tradição vienense que dominou a música ocidental desde Haydn até Brahms, terminou em convulsão e exaustão com a música assombrada de Mahler. Ao final do século XIX, ele introduziu o gigantismo sinfônico. Sua terceira sinfonia, um hino ao mundo da natureza, dura cerca de duas horas. Durante a execução há a intervenção de extraordinárias forças vocais representadas por uma soprano, coro de meninos e coro feminino. Mahler encerrou um ciclo musical do passado e foi o precursor da música do futuro. Arnold Schoenberg, um de seus discípulos, viria a criar a Segunda Escola Vienense de Música, cujas idéias transformaram a música do século XX.

As sinfonias de Mahler, com suas fanfarras de contos de fadas, suas melodias sentimentais justapostas com grandes perorações, seus clímaxes monumentais que se esforçam para chegar à transcendência mas acabam em derrota, representam simultâneamente um grito de esperança e um alarme sonoro. Nos fragmentos conscientes e na violência das incongruências de seu estilo, o compositor anunciou a violência da nova era. Este é o século da morte, escreveu Leonard Bernstein, e Mahler foi seu profeta espiritual.

Depois da morte prematura do compositor, apenas seus admiradores, como Bruno Walter, Otto Klemperer e Willem Mengelberg, continuaram a executar sua obra. Durante a segunda guerra, a música de Mahler foi totalmente banida dos teatros por ordem do nazismo.

Devemos a Leonard Bernstein, diretor musical da Filarmônica de Nova Iorque o retorno da obra de Mahler ao repertório das grandes orquestras sinfônicas. Ele abraçou a música de Mahler com a força da autodescoberta, tornando-se amigo da viúva do compositor, gravando o primeiro ciclo sinfônico completo e traçando imodestos paralelos entre ele mesmo e um titã morto cujo tempo finalmente chegara. (O Mito do Maestro, Lebrecht – pag. 263)

As sinfonias de Mahler mais divulgadas são a 1ª Sinfonia em ré maior – Titã, a 2ª Sinfonia em dó menor – A Ressurreição, a 5ª Sinfonia em dó sustenido menor (usada por Luchino Visconti na trilha musical de Morte em Veneza), a 8ª sinfonia em mi bemol maior – Sinfonia dos Mil. A obra leva esse nome, pois na sua estréia ela foi interpretada por 1.379 pessoas, entre músicos, solistas e um imenso coral. Mahler completou com sucesso sua 9ª Sinfonia, mas morreu antes de concluir a décima. Dela ficou apenas um movimento, o Adágio. O brilhante músico e escritor inglês Deryck Cooke finalizou a décima sinfonia de Mahler, baseado nos rascunhos deixados pelo compositor. Recentemente, o maestro Simon Rattle à frente da Filarmônica de Berlim, gravou a 10ª sinfonia de Mahler, completada por Cooke.

A canção Das Lied von der Erde pode ser considerada uma sinfonia, com seis seções para tenor, contralto e orquestra. Ela foi escrita no auge da carreira de Mahler. O compositor nunca escutou a execução dessa obra, cabendo a Bruno Walter apresentá-la em premiére mundial, no dia 20 de novembro de 1911.

Obra recomendada: a maioria dos críticos musicais recomenda a 1ª e a 5ª sinfonias para os ouvintes que desejam se iniciar na obra de Mahler. Minha preferência fica com a Sinfonia nº 2 chamada A Ressurreição. A obra foi composta entre 1887 e 1894 e seu primeiro movimento – Todtenfeier– mostra o ritual fúnebre do herói da primeira sinfonia. Os três primeiros movimentos são totalmente instrumentais. Após a Marcha Fúnebre segue-se um Andante e oScherzo. Eles servem como um interlúdio para relembrar os momentos de alegria e de tristeza do personagem. No quarto movimento – Urlicht ou Luz Primitiva – o herói escuta o chamado de Deus. No Finale em tempo de scherzo ele deve enfrentar o dia do julgamento antes que lhe seja garantida a imortalidade. Para abordar um tema tão grandioso, a sinfonia foi escrita para uma grande orquestra, incluindo dez trompas, oito trompetes, dois solistas e coral. O coral interpreta um texto poético de Friedrich Gottlieb Klopstock, enriquecido com versos do próprio Mahler.

A estréia desta sinfonia foi executada pela Orquestra Filarmônica de Berlim, sob a regência de Richard Strauss, no dia 4 de março de 1895. Foram apresentados apenas os três primeiros movimentos. Mahler assistiu ao concerto, sendo chamado ao palco por cinco vezes, após a execução do Scherzo. A imprensa em geral, foi totalmente hostil à nova sinfonia. A primeira performance completa de A Ressurreição foi conduzida pelo próprio Mahler, no dia 13 de dezembro de 1895, em Berlim. Os regentes Arthur Nikish, Felix Weingartner e Bruno Walter estavam na platéia e ficaram profundamente impressionados com a obra.

Gravações recomendadas:

# Sinfonia nº 2, de Gustav Mahler, com Sheila Armstrong, Janet Baker, Edinburgh Festival Chorus e London Symphony Orchestra sob a regência de Leonard Bernstein. Deutsche Grammophon.

# Sinfonia nº 2, de Gustav Mahler, com Isobel Buchanan, Mira Zakai, Chicago Symphony Chorus e a Chicago Symphony Orchestra sob a regência de Sir Georg Solti – London/Polygram.

Também merecem destaque as gravações conduzidas por Klaus Tennstedt (EMI Classics) e Rafael Kubelik (Deutsche Grammophon) à frente da Orquestra Filarmônica de Londres e da Orquestra Sinfônica da Rádio da Baviera, respectivamente.

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