Inovação educativa

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Miguel Setas é vice-presidente de distribuição e inovação da EDP do Brasil.
Recentemente, assim como o resultados do Enem, foi divulgado o estudo Education at a Glance 2011 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que apresenta uma análise evolutiva dos sistemas educativos de 42 países nas últimas décadas.

A média dos países da OCDE avançou, nos últimos 30 anos, 15 p.p. na proporção de pessoas com formação superior. O Brasil, por sua vez, progrediu 3 p.p., um dos valores mais baixos da amostra. O melhor desempenho nesse quesito foi o da Coreia do Sul, que neste mesmo período aumentou em 50 p.p. a proporção de pessoas com formação superior.

Mas o que esses resultados não evidenciam é que a maioria dos modelos educativos em vigor, mesmo nos chamados países desenvolvidos, não tem acompanhado a rápida transformação do mundo moderno.

Antes pelo contrário, até hoje a maioria dos sistemas educacionais tem-se concentrado na imposição de uniformidade curricular e de padrões desajustados das necessidades da nova economia. Aliás, os mais de 40% de jovens desempregados na Espanha e uma baixa taxa de empreendedorismo não serão sinais desse desajuste?

O especialista britânico em educação, Sir Ken Robinson, afirma que a escola, tal como a conhecemos hoje, é responsável por “matar a criatividade das crianças”, impondo uma padronização a que ele chama de modelo educativo tipo fast food, que empobrece os espíritos e desaproveita os talentos individuais.

O problema é que no mundo global a criatividade e a inovação são competências críticas de sucesso.

Muitas são as evidências de que a educação atual não incorpora o conhecimento que a ciência já detém sobre o desenvolvimento do intelecto. Dois exemplos concretos são o ensino da música e o multilingualismo.

Descobertas publicadas na revista Neurological Research mostraram que crianças que receberam aulas de piano alcançaram melhores resultados em testes que mediam a capacidade de raciocínio abstrato, do que crianças que não tiveram tais aulas.

A música por si só aumenta as funções cerebrais exigidas em matemática e ciências. E não pensemos que só um país rico pode ensinar música às suas crianças. A Venezuela, por exemplo, através do projeto El sistema, já educou musicalmente quase meio milhão de crianças nos últimos 30 anos, entre elas gênios da música como o jovem Gustavo Dudamel.

Sobre o multilingualismo, estudos recentes referenciados na revista Scientific American, parecem demonstrar que as crianças que crescem aprendendo mais do que um idioma com fluência evidenciam maiores capacidades cognitivas do que as crianças que crescem com monolingualismo. E, no entanto, são poucos os países que promovem o ensino bilíngue.

Mas já existem casos de sucesso de inovação educativa que estão quebrando os paradigmas do século passado. Exemplos de Cingapura, Hong Kong e Coreia do Sul constituem referências na adoção de sistemas mais inovadores.

Sistemas em que a carreira dos professores é muito valorizada, em que a performance é monitorada escola-a-escola, em que as escolas com melhor desempenho conquistam autonomia para adaptar os seus programas ao perfil e necessidades dos alunos, modelos em que as melhores práticas e a inovação são partilhadas entre escolas.

Os resultados agora conhecidos do estudo da OCDE, aparentemente desfavoráveis para o Brasil, afiguram-se como uma porta aberta para uma revolução educativa nas próximas décadas, que beneficia do conhecimento que já existe de alguns casos de sucesso e da capacidade criativa do povo brasileiro.

Artigo originalmente publicado no Brasil Econômico.

Miguel Setas

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