Brasil-Alemanha: uma parceria para ousar

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A crise de 2008-2009 e o endividamento de alguns países da zona do euro acentuaram o papel global da Alemanha. O país ressurge como ator relevante no redesenho da ordem internacional. Comparada àquela dos demais países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a economia alemã teve expansão excepcional em 2010; apesar da desaceleração neste ano, crescerá mais do que a maioria das economias industrializadas. A Alemanha procura aprofundar suas relações com países que considera novos centros de poder global, entre os quais está o Brasil. Junto com o Brasil, a Alemanha preconiza a reforma das instituições multilaterais, em particular a do Conselho de Segurança das Nações Unidas, e apoia o G-20 como foro legítimo para discutir os desafios econômicos.

A Alemanha vê no Brasil uma democracia e uma economia de grande importância internacional. A existência aqui de mais de 1.200 empresas alemãs com faturamento em torno de 8% do PIB brasileiro é poderoso vetor nas relações bilaterais. Há um realce para as convergências entre ambos de valores, princípios e interesses na promoção de um mundo mais justo. O diálogo político se intensifica: a chanceler Angela Merkel veio ao Brasil em 2008, o ex-presidente Lula visitou a Alemanha em 2009 e o presidente federal Christian Wulff encontrou-se com a presidenta Dilma Rousseff, em Brasília, neste ano. Visitas ministeriais têm sido trocadas. Empresas alemãs anunciaram, em 2011, substanciais investimentos no Brasil.

O Brasil e a Alemanha podem cooperar para aumentar sua competitividade num cenário de forte assédio econômico por parte de outros concorrentes. Cumpre ter uma visão estratégica da respectiva inserção na ordem internacional transformada. A cooperação bilateral pode ser intensificada com investimentos, inovação e inclusão de novos atores, especialmente pequenas e médias empresas. Estas são a espinha dorsal da economia alemã e seu principal vetor da inovação.

Programas governamentais brasileiros como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e também os grandes eventos esportivos nesta década são oportunidades para diversificar o relacionamento econômico em setores como infraestrutura e logística, energia, segurança pública, defesa do ambiente.

A política industrial alemã defende a melhoria do ambiente de negócios e o apoio do Estado para manter a liderança da sua indústria em setores de ponta. As terras raras e outras matérias primas são estratégicas para indústrias alemãs de alta tecnologia. Diversificar parceiros onde esses insumos são produzidos é um dos objetivos alemães; o Brasil pode ganhar com isso ante a ocorrência desses recursos em seu território. Novas fronteiras para beneficiar, no Brasil, matérias primas ainda pouco exploradas podem se abrir.

Tecnologia e inovação devem ser os pilares dinâmicos da cooperação. A força de trabalho alemã é altamente qualificada e torna a Alemanha parceira importante no treinamento de engenheiros e técnicos brasileiros. O parque industrial, especializado em exportar bens de alta tecnologia, beneficia-se de a Alemanha ser a terceira maior origem de artigos científicos publicados no mundo e de ser o maior usuário do sistema internacional de patentes na União Europeia. Produtos de alta tecnologia correspondem a 17% das exportações alemãs; em 2010, essas exportações cresceram 18%.

Agregar valor aos produtos e processos gerados no Brasil e ganhar competitividade nos mercados internacionais servirão aos interesses das empresas alemãs instaladas aqui bem como à vocação exportadora da indústria brasileira. Cumpre conjugar a parceria empresarial com os recursos de pesquisa e desenvolvimento dos dois países. Isso requer visão e investimento por parte da iniciativa privada e demanda também o empenho e o apoio dos governos e das suas instituições.

A cooperação tecnológica, a promoção da inovação e de novos investimentos consubstanciam a parceria estratégica e servem de lastro para intensificar o diálogo político. Estimulam também parcerias em setores como defesa e segurança pública, cujos projetos industriais em curso têm o potencial para desenvolver produtos e processos para uso civil. Podem, ademais, abrir espaço para associação ao esforço alemão de viabilizar a maciça utilização de energias alternativas, como a solar. O Brasil tem experiências pioneiras: exemplos são a matriz energética com participação majoritária das fontes renováveis e as tecnologias de ponta para a exploração de petróleo em águas profundas.

Ambos os países têm no Encontro Econômico Brasil-Alemanha, que termina amanhã no Rio de Janeiro, instrumento valioso para que empresários e governos discutam estratégias e modalidades para diversificar as relações econômicas. Brasil e Alemanha dispõem de amplo arcabouço jurídico e político bilateral, andaime necessário às iniciativas para intensificar a parceria estratégica, sobretudo no plano econômico-comercial. À Comissão Mista de Cooperação Econômica, que se reúne também no Rio de Janeiro, cabe definir diretrizes políticas que aperfeiçoem esse arcabouço.

A Alemanha é o quarto parceiro comercial do Brasil. Entre 2002 e 2008, o comércio bilateral triplicou; em 2010, foi de US$ 20,6 bilhões. Contudo, é ele deficitário para o Brasil. A mudança qualitativa requerida no perfil das exportações brasileiras para incorporar majoritariamente bens de maior valor agregado requer ousadia, ambição e vontade política. A relação econômica e empresarial Brasil-Alemanha é um dos casos mais bem sucedidos de investimento e integração de empresas de um país industrializado no sistema produtivo de um país em desenvolvimento. Altas taxas de crescimento econômico em ambos os países após a crise de 2008-2009, conjugadas à retomada dos investimentos alemães no Brasil, propiciam ações para estreitar a cooperação e, sobretudo, moldar uma parceria que constitua um dos elementos-chave da inserção regional e global dos dois países.

O autor, Everton Vieira Vargas é embaixador do Brasil na Alemanha. Publicado no jornal Valor Econômico.

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